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1 Introdução 

A liderança desempenha um papel central no planejamento estratégico, sendo um fator determinante para sua efetividade e implementação bem-sucedida. Ao contrário do que se poderia presumir, o planejamento estratégico não substitui a liderança, tampouco se concretiza de maneira autônoma. Trata-se, antes, de um conjunto de conceitos, procedimentos e práticas que auxiliam líderes, gestores e demais stakeholders a pensar, agir e aprender de forma estratégica. Dessa forma, a liderança eficaz e o compromisso dos envolvidos tornam-se condições essenciais para o sucesso desse processo.

A obra de Bryson (2018) enfatiza que o planejamento estratégico é, em sua essência, um empreendimento coletivo. Para que funcione, requer a atuação ativa de líderes capazes de fornecer visão, mobilizar apoio, facilitar decisões e fomentar coalizões. Além disso, a liderança não se restringe a uma posição hierárquica, mas envolve um conjunto de habilidades e atitudes que permitem compreender o contexto organizacional, engajar pessoas, patrocinar e defender o processo estratégico, bem como criar espaços de deliberação e tomada de decisão. Esses aspectos são fundamentais para garantir a condução eficiente do planejamento estratégico ao longo de seu ciclo de implementação e adaptação.

No contexto da criação de valor público, a liderança assume um papel ainda mais amplo e complexo. Tanto governos democráticos quanto organizações sem fins lucrativos e comunidades possuem o potencial de gerar valor público por meio de políticas, serviços e ações que promovam o bem-estar social. No entanto, desafios como insuficiência de recursos, particularismo e paternalismo podem comprometer essa missão, exigindo dos líderes um olhar crítico e estratégico para evitar falhas e maximizar impactos positivos. A partir dessa perspectiva, Bryson (2018) destaca que a criação de valor público duradouro requer a capacidade de interpretar a realidade, mobilizar esforços coletivos, delinear estratégias e construir um senso compartilhado de futuro.

Dessa maneira, este estudo explorará a interseção entre liderança e planejamento estratégico, analisando como os líderes podem estruturar processos eficazes, superar desafios e contribuir para a construção de um ambiente organizacional e social mais eficiente e equitativo.

2 O papel do Líder na Gestão Estratégica

A liderança na gestão estratégica é um fator determinante para o sucesso das organizações, pois influencia diretamente a formulação, implementação e adaptação de estratégias organizacionais. O planejamento estratégico não é um substituto para a liderança. O planejamento estratégico também não se implementa sozinho. Em vez disso, o planejamento estratégico é simplesmente uma abordagem que consiste em um conjunto de conceitos, procedimentos, ferramentas e práticas destinadas a ajudar os líderes, gerentes, planejadores, funcionários e outras partes interessadas de uma organização (colaboração ou comunidade) a pensar, agir e aprender estrategicamente. Os indivíduos que desejam utilizar o planejamento estratégico devem estar atentos a uma ampla gama de preocupações de liderança (Bryson, 2018).

Quando o planejamento estratégico funciona, é uma conquista coletiva. A liderança eficaz (e seguidores comprometidos) são necessárias para o planejamento e implementação (Bryson, 2018).

As funções de liderança incluem o seguinte:

  • Fornecer visão e estratégias de mudança;
  • Mobilizar um grupo eleitoral;
  • Facilitar decisões em grupo ou criar coligações.

Para que o planejamento estratégico e a gestão sejam eficazes, é essencial ter uma liderança e seguidores atenciosos e comprometidos (Bryson, 2018). Os líderes devem procurar compreender os pontos fortes e fracos das pessoas que estão ou devem estar envolvidas no planejamento e na implementação estratégica, incluindo eles próprios. Uma paixão por cumprir a missão da organização e contribuir para o bem-estar de múltiplas partes interessadas é talvez a força mais importante (idem).

Para fazer o planejamento estratégico funcionar, os líderes precisam:

  • Entender o contexto;
  • Entender as pessoas envolvidas;
  • Patrocinar e defender o processo;
  • Promover a liderança coletiva;
  • Projetar e usar ambientes formais e informais para discussão, deliberação, tomada de decisão e gestão de conflitos;
  • Juntar tudo ao longo do Ciclo de Mudança de Estratégia;
  • Estar disposto a exercer poder e autoridade para manter o processo no caminho certo.

Dois papéis de liderança são especialmente importantes para o sucesso de qualquer esforço de planejamento estratégico: patrocinar e defender. A menos que o processo seja patrocinado (em última análise, se não inicialmente) por líderes e tomadores de decisão importantes e poderosos, é provável que falhe. Somente os principais tomadores de decisão que também são líderes eficazes serão capazes de motivar e orientar suas organizações por meio de um processo bem-sucedido de pensamento, ação e aprendizado estratégico. A liderança dos principais tomadores de decisão é absolutamente necessária se a própria organização deve ser alterada como resultado do planejamento estratégico.

Um processo de planejamento estratégico não terá sucesso a menos que seja defendido por alguém. Essa pessoa deve acreditar no processo e ver seu papel como promotor do pensamento, ação e aprendizado eficazes por parte dos principais tomadores de decisão. Um defensor do processo não tem uma visão preconcebida de quais são as principais questões que a organização enfrenta ou um conjunto preconcebido de respostas para essas questões; em vez disso, ele impulsiona um processo que provavelmente produzirá respostas eficazes. Certamente ajuda se o defensor do processo estiver próximo ao topo do organograma.

Um terceiro papel de liderança – facilitar – também pode ser muito importante. A facilitação é uma habilidade especial e pode ser muito importante em pontos específicos, especialmente durante o projeto do processo e à medida que grupos de participantes aprendem a trabalhar juntos de forma eficaz.

O líder responsável pela condução da gestão estratégica ou pela criação e implementação do planejamento estratégico deve possuir uma série de atributos, os quais são tratados num rol exemplificativo a seguir:

  1. Visão e Direcionamento Estratégico: Os líderes desempenham um papel crucial na definição da visão e missão da organização. De acordo com Kotter (1996), líderes eficazes são aqueles que estabelecem uma direção clara e inspiram os membros da organização a segui-la. Essa visão estratégica deve ser comunicada de forma persuasiva, garantindo que todos os colaboradores compreendam seu papel na execução da estratégia. Bryson (2018) complementa essa visão ao destacar que a criação de valor público depende de uma liderança capaz de articular um senso coletivo de futuro e mobilizar esforços para concretizá-lo.
  2. Decisão e Adaptabilidade em Ambientes Dinâmicos: Na era da volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade (VUCA), o líder estratégico deve possuir uma alta capacidade de adaptação. Mintzberg, Ahlstrand e Lampel (2005) argumentam que a estratégia não deve ser vista apenas como um plano pré-definido, mas como um processo dinâmico que envolve aprendizado e ajustes contínuos. Nesse sentido, líderes eficazes são aqueles que combinam análise rigorosa com flexibilidade para modificar estratégias à medida que novas informações surgem.
  3. Engajamento e Gestão de Stakeholders: A gestão estratégica exige a habilidade de mobilizar e engajar diferentes stakeholders, internos e externos, para garantir a implementação das estratégias organizacionais. Freeman (2010), na Teoria dos Stakeholders, destaca que os líderes devem identificar e equilibrar os interesses de diversos grupos, incluindo funcionários, clientes, fornecedores e comunidades. Para Bryson (2018), a liderança estratégica também envolve o fortalecimento da colaboração entre múltiplas partes interessadas, garantindo que a estratégia organizacional reflita um compromisso com o bem comum.
  4. Cultura Organizacional e Liderança Transformacional: A cultura organizacional influencia diretamente a capacidade de implementação da estratégia. Schein (2017) argumenta que líderes são os principais agentes na construção e manutenção da cultura organizacional, influenciando valores, normas e comportamentos dentro da organização. Burns (1978) e Bass (1985) enfatizam que a liderança transformacional é especialmente eficaz na gestão estratégica, pois inspira e motiva equipes a irem além de suas funções individuais, criando um ambiente de inovação e comprometimento.
  5. Liderança e Criação de Valor Público: Em organizações públicas e sem fins lucrativos, a gestão estratégica deve estar alinhada à criação de valor público. Moore (1995) introduziu o conceito de “gestão estratégica do valor público”, no qual os líderes desempenham um papel central ao articular uma visão que equilibre eficiência operacional com impacto social. Bryson (2018) reforça essa perspectiva ao destacar que a liderança eficaz deve garantir que as organizações atuem de maneira transparente, democrática e alinhada aos interesses coletivos.
  6. Exercício do Poder e Influência: A implementação da estratégia requer que o líder saiba exercer poder e influência de maneira ética e construtiva. French e Raven (1959) identificaram diferentes fontes de poder na liderança, incluindo poder legítimo, de especialização, de recompensa e coercitivo. Para Pfeffer (2010), a habilidade de navegar pelas dinâmicas de poder organizacional é fundamental para que os líderes promovam mudanças estratégicas e superem resistências internas.

3 Como a liderança deve agir para criar valor público?

Segundo Bryson (2018), os líderes podem criar valor público por meio de uma variedade de atividades sobrepostas. Os governos democráticos podem criar valor público por meio das seguintes atividades:

  • Fornecer uma estrutura constitucional de leis e apoiar o estado de direito.
  • Criar um governo aberto e transparente.
  • Promover e confiar no processo democrático.
  • Proteger os direitos civis e humanos, a dignidade humana e o núcleo da subsistência; e, além disso, fornecer maneiras de garantir a mobilidade social e a oportunidade progressiva.
  • Garantir que uma visão de longo prazo e holística seja adotada e que a administração do interesse público e do bem comum sejam vistas como funções cruciais do governo.
  • Inspirar e mobilizar o próprio governo e outras entidades e atores importantes para empreender ações individuais e coletivas em busca do bem comum.
  • Subsidiar atividades com efeitos indiretos positivos para o público em geral.
  • Taxar ou regular atividades com efeitos indiretos negativos reais ou potenciais para o público em geral.
  • Abordar problemas criados por assimetrias na disponibilidade, distribuição ou uso de informações.
  • Fornecer bens e serviços públicos de forma econômica.
  • Usar informações, pesquisas científicas e uma variedade de análises orientadas ao valor público que sejam o mais objetivas possível para informar as decisões públicas.
  • Fazer uso de servidores públicos com mentalidade cívica e experiência profissional.

As comunidades podem criar valor público promovendo um senso de identidade individual e coletiva, pertencimento, reconhecimento e segurança; fornecendo às pessoas um lugar para viver, trabalhar, aprender, desfrutar e se expressar; construindo e mantendo capital físico, humano, intelectual, social e cultural de vários tipos; e promovendo uma sociedade democrática engajada cívica, igualitária, confiável e tolerante (Bryson, 2018).

A criação de um valor público duradouro exige que os benefícios duradouros do que a organização faz e não faz superem significativamente os custos.

Para criar valor público de forma eficaz, os líderes precisam ser capazes de interpretar a realidade atual, promover uma missão coletiva de grupo, articular estratégias desejáveis e moldar um senso coletivo de futuro (Bryson, 2018).

4 Conclusão 

A interseção entre liderança e planejamento estratégico configura-se como um dos pilares fundamentais para a eficiência organizacional, a sustentabilidade institucional e a criação de valor público. 

A literatura evidencia que o planejamento estratégico, por si só, não se materializa sem a atuação ativa de líderes capazes de articular visões de longo prazo, mobilizar recursos e alinhar interesses diversos em prol de objetivos comuns (BRYSON, 2018; KOTTER, 1996). Nesse sentido, a liderança eficaz transcende a mera supervisão administrativa, sendo essencial para garantir que a estratégia seja concebida, implementada e adaptada de forma coerente com as demandas dinâmicas do ambiente organizacional e social.

Os líderes desempenham um papel central na formulação estratégica ao interpretar cenários, definir direções e promover o engajamento de stakeholders internos e externos. Como evidenciado por Freeman (2010) e Bryson (2018), a gestão estratégica moderna requer não apenas conhecimento técnico, mas também habilidades de negociação, comunicação e facilitação de processos decisórios. Em ambientes cada vez mais voláteis e complexos, a capacidade de adaptação torna-se um atributo essencial, conforme destacado por Mintzberg, Ahlstrand e Lampel (2005), que enfatizam a necessidade de flexibilidade na execução da estratégia.

Além disso, a liderança estratégica está intrinsecamente ligada à cultura organizacional e ao engajamento dos colaboradores. O modelo de liderança transformacional proposto por Burns (1978) e Bass (1985) demonstra que líderes inspiradores têm maior capacidade de mobilizar equipes e fomentar um ambiente propício à inovação e à execução eficaz da estratégia. No setor público e em organizações sem fins lucrativos, esse papel assume contornos ainda mais críticos, uma vez que a criação de valor público depende da capacidade dos líderes de equilibrar eficiência operacional com impacto social, conforme argumentado por Moore (1995) e Bryson (2018).

Por fim, a liderança na gestão estratégica envolve não apenas a tomada de decisões racionais, mas também a gestão do poder e da influência dentro das organizações. O modelo de fontes de poder de French e Raven (1959) e as análises de Pfeffer (2010) demonstram que a capacidade de navegar pelas dinâmicas organizacionais é essencial para promover mudanças estratégicas e superar resistências internas. Assim, conclui-se que a liderança eficaz é um fator determinante para o sucesso do planejamento estratégico, sendo indispensável para transformar diretrizes abstratas em ações concretas e sustentáveis. Dessa forma, investir no desenvolvimento das competências de liderança estratégica torna-se uma prioridade para qualquer organização que almeje excelência e impacto duradouro em sua atuação.

Referências

BASS, Bernard M. Leadership and performance beyond expectations. New York: Free Press, 1985.

BRYSON, John M. Strategic Planning for Public and Nonprofit Organizations: A Guide to Strengthening and Sustaining Organizational Achievement. 5. ed. Hoboken: Wiley, 2018.

BURNS, James MacGregor. Leadership. New York: Harper & Row, 1978.

FRENCH, John R. P.; RAVEN, Bertram. The bases of social power. In: CARTWRIGHT, Dorwin; ZANDER, Alvin (Ed.). Group Dynamics: Research and Theory. New York: Harper & Row, 1959. p. 150-167.

FREEMAN, R. Edward. Strategic Management: A Stakeholder Approach. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.

KOTTER, John P. Leading Change. Boston: Harvard Business Review Press, 1996.

MINTZBERG, Henry; AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Strategy Safari: A Guided Tour Through the Wilds of Strategic Management. 2. ed. New York: Free Press, 2005.

MOORE, Mark H. Creating Public Value: Strategic Management in Government. Cambridge: Harvard University Press, 1995.

NORTHOUSE, Peter G. Leadership: Theory and Practice. 9. ed. Thousand Oaks: SAGE Publications, 2021.

PFEFFER, Jeffrey. Power: Why Some People Have It and Others Don’t. New York: Harper Business, 2010.

SCHEIN, Edgar H. Organizational Culture and Leadership. 5. ed. Hoboken: Wiley, 2017.

YUKL, Gary A. Leadership in Organizations. 8. ed. Boston: Pearson, 2013.

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    Como citar este texto

    FOUREAUX, Rodrigo. Liderança no Planejamento Estratégico. CJPol, Brasília/DF. Disponível em: <https://cjpol.com.br/gestao_ativ_policial/lideranca-no-planejamento-estrategico/>. Acesso em: 21/10/2026.