A análise do crime é um dos vários tipos de análise que se enquadram num macrotítulo denominado “análise de aplicação da lei”, “análise de segurança pública” ou “análise policial” (BRUCE, 2008). A “análise da aplicação da lei” é provavelmente a mais comum. A análise criminal pode ser conceituada como
[…] o estudo sistemático dos problemas de criminalidade e desordem, bem como de outras questões relacionadas com a polícia – incluindo fatores sociodemográficos, espaciais e temporais – para ajudar a polícia na apreensão criminal, na redução da criminalidade e da desordem, na prevenção e avaliação do crime (BOBA, 2008, p. 3).
A International Association of Crime Analysts (IACA) definiu o conceito de Análise Criminal como sendo
A análise criminal é uma profissão e um processo em que é utilizado um conjunto de técnicas quantitativas e qualitativas para analisar dados valiosos para as agências policiais e suas comunidades. Inclui a análise do crime e dos criminosos, das vítimas do crime, da desordem, das questões de qualidade de vida, das questões de trânsito e das operações policiais internas, e os resultados apoiam investigações e processos criminais, atividades de patrulha, estratégias de prevenção e redução do crime, resolução de problemas e a avaliação dos esforços da polícia (IACA, 2014, p. 2).
O conceito descrito pela IACA (2014) clarifica algumas questões:
- todas as análises de dados que são realizadas nas agências policiais[1] se enquadram na categoria de análise criminal;
- enfatiza que a palavra “crime” nunca é entendida literalmente em “análise de crime” ou “analista de crime”. Em vez disso, os analistas do “crime” estudam todos os dados importantes para a polícia.
- análise criminal dá suporte a maior parte das funções de uma agência policial.
1.1 Classificação da análise criminal
A IACA reconhece como tipos de análise criminal: a análise criminal tática, análise criminal estratégica, analise de inteligência criminal e análise criminal administrativa (BRUCE, 2017):
- A análise criminal tática realiza as análises dos dados direcionados para o desenvolvimento de ações de curto prazo (preventivas, de priorização de investigações e implementação de recursos). Essa área de atuação inclui perfil de crimes individuais, reincidência, padrões de crimes com foco específico em crimes em série;
- Análise criminal estratégica: a análise de dados direcionada para o desenvolvimento e avaliação de estratégias de longo prazo, políticas e técnicas de prevenção. O objeto inclui tendências estatísticas de longo prazo, hot spots e análise de problemas;
- Análise de inteligência criminal: análise de dados sobre pessoas envolvidas em crimes, particularmente autores contumazes, vítimas reincidentes, organizações criminosas e relacionamentos (networks) criminais. Procura compreender mais sobre o contexto das vidas, atividades, motivos e planos destes indivíduos e redes, utilizando esta informação para encontrar formas de dissuadir ou interromper atividades danosas, muitas vezes através da aplicação de prioridades, como a dissuasão focada.
- Análise criminal administrativa: análise direcionada às necessidades administrativas da agência policial, do governo e da comunidade. Como uma categoria ampla, inclui uma variedade de técnicas e produtos, executados regularmente e mediante solicitação, incluindo estatísticas, impressões de dados, mapas e gráficos. Os exemplos incluem cálculos de carga de trabalho por área e turno, relatórios de atividades de policiais, respostas a solicitações da mídia, estatísticas fornecidas para solicitações de orçamento, relatórios para grupos comunitários e análises de custo-benefício de programas policiais.
A IACA (2014) passou rejeitou a continuação do uso de outros vários termos que aparecem comumente em outras fontes, tais como: análise de operações, análise operacional e análise criminal investigativa.
Os quatro tipos de análise criminal não são excludentes entre si, pois há vários projetos de análise criminal que envolvem uma mistura dessas tipologias. De toda forma, a classificação em quatro tipos é um mecanismo útil para pensar sobre a carga de trabalho do analista, agenda de produtos, e um processo de desenvolvimento profissional. Analistas que se concentram demais num tipo de análise criminal ou quem negligencia um dos tipos de análise, provavelmente não fornecem às suas agências uma gama completa de serviços de análise criminal.
| O QUE A ANÁLISE CRIMINAL NÃO É – Análise criminal não é uma investigação da cena do crime ou uma ciência forense. A análise criminal refere-se a análise de dados, incluindo a análise de inteligência, mas não a análise de evidências. – Análise criminal não engloba a “criação de perfis”. Existem alguns elementos de perfil psicológico inerentes a vários tipos de análise criminal, particularmente a análise tática do crime e a análise de inteligência criminal, mas a maior parte da análise criminal é feita com dados concretos e não com inferências acerca das motivações ou composição psicológica de um infrator. – A análise criminal não é pesquisa criminológica. Analistas criminais trabalham com um conjunto de dados complexo e dinâmico, e que gera informações de uso direto e imediato pelas Agências Policiais (portanto trata-se de um método estritamente aplicado). A pesquisa criminológica apesar de se utilizar de dados produzidos pela análise criminal e a análise criminal se utilizar dos conhecimentos produzidos pela pesquisa criminológica, os processos e habilidades não são necessariamente transferíveis de um campo para outro. |
Na sequência, abordaremos amiúde cada um dos tipos de análise criminal.
1.1.1 Análise Criminal Tática
.A análise tática é um processo diário orientado para a ação, cujo objetivo é apoiar as necessidades imediatas da agência policial. A análise criminal se concentra no que a prevenção criminal ou a investigação (conforme característica da Agência Policial) possam fazer hoje para resolver os atuais problemas de segurança pública, com enfoque especial para os padrões de criminalidade. Como isso tem que ser feito todos os dias, com problemas continuamente atualizados com base nos dados mais recentes, é fácil para os analistas ficarem sobrecarregados com responsabilidades táticas e gastarem maior parte do tempo nesta categoria.
Outras tarefas da análise tática incluem notificar a Agência Policial sobre os últimos crimes graves, transmitir informações pertinentes de outras agências, apoiar operações táticas com relatório e mapas, e fornecer alertas breves sobre incidentes repetidos (múltiplos crimes ou chamadas de serviço envolvendo os mesmos locais e participantes).
A maioria das técnicas e esforços de análise tática do crime concentram-se em padrões de atividade (patterns of activity), que são definidos por IACA (2011, p. 1-2) como:
Dois ou mais crimes denunciados ou descobertos pela Polícia que são únicos porque compartilham cada uma das seguintes condições:
- Os eventos criminais compartilham pelo menos um ponto em comum no tipo de crime: comportamento dos infratores ou vítimas, características dos infratores, vítimas ou alvos, alvo do evento (se contra a propriedade), ou os locais de ocorrência;
- Não há relacionamento conhecido entre vítima(s) e autor(es);
- As semelhanças identificadas entre os eventos tornam o conjunto analisado como distinto de outras atividades criminosas identificadas no mesmo intervalo de análise;
- A atividade criminal é tipicamente de duração limitada, variando em extensão entre semanas e meses;
- O conjunto de crimes relacionados é tratado como uma unidade de análise e é abordado por meio de esforços e táticas policiais.
Assim, resumidamente o papel fundamental da Análise Criminal Tática é a identificação e análise diária de padrões de criminalidade emergentes ou existentes, incluindo séries e hot spots. Os objetivos da análise tática são:
- identificar padrões emergentes de criminalidade o mais rápido possível;
- análise abrangente de quaisquer padrões;
- notificar a agência policial sobre a identificação dos padrões;
- trabalhar com a agência policial no desenvolvimento de táticas para lidar com os padrões.
Essencialmente, os padrões representam grupos distintos e incomuns de crimes que devem ser identificados e interrompidos rapidamente se a Agência Policial quiser manter o controle criminal. Desta forma, é vital que os analistas criminais identifiquem os padrões rapidamente à medida que eles emergirem e comuniquem as informações à Agência Policial que possam apoiar uma ação tática e focada (incluindo nessas ações a apreensão, supressão e endurecimento de alvos[2]).
Os analistas utilizam vários métodos para identificar padrões de crime, dentre os quais, o mais frequente envolve a revisão diária de relatórios de crimes (boletins de ocorrência policial) e a comparação desses relatórios com incidentes passados. Ao fazer esta comparação, o analista procura semelhanças suficientes entre um incidente passado e um incidente presente para sugerir um padrão de crime. Para realizar essas comparações, os analistas de antigamente mantinham registros em papel de crimes e seus vários fatores, mas a maioria dos analistas modernos usa bancos de dados e técnicas de consulta a bancos de dados. Existem também mapeamento do crime e técnicas estatísticas que ajudarão na identificação de padrões.
A análise de um padrão de crime normalmente se concentra nas perguntas presentes no heptâmetro de Quintiliano[3], que corresponde a uma síntese das principais perguntas que devem conduzir tanto a investigação quanto a análise criminal.
Figura 2 – Representação do Heptâmetro de Quintiliano

Fonte: Elaborado pelo autor.
Figura 3 – Análise quantitativa e qualitativa no Heptâmetro de Quintiliano

Fonte: Elaborado pelo autor.
Os fatores quem, o quê, quando, onde ou como são comuns a um número significativo de incidentes. Identificar esses pontos em comum costuma ser a chave para a solução do padrão.
Esses questionamentos não são exaustivos, mas apenas um referencial ao qual podem ser agregados outras indagações. O heptâmetro, portanto, apresenta indagações mínimas, mas não exaurem o rol de indagações que devem ser feitas em face de uma situação sob análise (BARBOSA, 2011).
Pode-se dividir a análise em duas partes:
- análise quantitativa: afeta à identificação dos padrões e tendências espaço-temporais dos eventos (o que , quando e onde); e
- análise qualitativa: análise que demanda maior aprofundamento do analista a fim de identificar como (modus operandi); quem (autoria), por que (motivação do crime), com quais meios (meios utilizados).
Normalmente a análise criminal tática é encarregada da análise quantitativa, ou seja, dos padrões afetos à distribuição espaço-temporal do crime (o que: qual tipo de crime; quando: dia da semana, horário; onde: localização geográfica). Já a análise de questões competentes à identificação de pessoa do infrator (quem, por que, como e com que meios) são mais afetas à análise de inteligência criminal, conforme abordaremos no próximo tópico.
1.1.2 Análise estratégica
A análise estratégica do crime concentra-se em tendências, problemas e hot spots de crime e desordem de longo prazo ou crônicos. Em contraste com a análise tática, a análise estratégica é uma tarefa periódica e não diária. Geralmente leva mais tempo e exige que o analista colete seus próprios dados, em vez de confiar exclusivamente em relatórios policiais. Finalmente, o uso eficaz da análise estratégica do crime tende a concentrar-se na redução de oportunidades e não na apreensão do infrator (BRUCE, 2017).
As tendências são aumentos e diminuições a longo prazo na criminalidade, ou mudanças nas características de um crime durante um período de tempo. As tendências da criminalidade podem ocorrer ao longo de meses, anos, décadas e até séculos, mas raramente são discutidas em termos inferiores a um mês ou superiores a uma década.
As tendências de criminalidade podem ser positivas (aumento em um tipo de crime), negativas (diminuições num tipo de crime) ou neutro (mudança nas características sem alterações de volume do número de eventos). “Positivo” e “negativo” nesse sentido refere-se à direção da mudança no volume de crimes de um período para outro e não um juízo de valor sobre a conveniência da mudança. É tão importante estudar as tendências negativas quanto as positivas, uma vez que reduções de uma tipologia criminal ou das taxas de crimes num determinado local podem indicar apenas uma mudança no fenômeno da criminalidade.
Este fato pode ser explicado por meio da “teoria das brechas” proposta por Killias (2006), segundo a qual “as tendências de longo prazo do crime sugerem que os aumentos geralmente foram provocados por ‘brechas’, ou seja, novas oportunidades repentinas de ofensa que surgiram como resultado de mudanças no ambiente tecnológico ou social” (Killias, 2006, p. 11). Somente quando essas brechas são fechadas por meio de medidas preventivas e mudanças apropriadas na legislação criminal é que o crime diminui.
Um exemplo dessa constatação é a redução dos crimes violentos contra o patrimônio em Minas Gerais de 2018 a 2023 (redução de 69% dos roubos). Não obstante, no mesmo período houve uma tendência positiva de 453% para o crime de estelionato. Verificando-se o meio utilizado para a prática criminosa, houve um aumento do meio eletrônico em 1375%.
Os analistas criminais podem identificar problemas emergentes através do estudo de tendências, mas com igual frequência os problemas são identificados por agentes da polícia ou membros da comunidade. Em contraste com os padrões, os analistas raramente são os primeiros portadores da mensagem dos problemas do crime. Em muitas comunidades, a existência de certos problemas de longo prazo é de conhecimento comum. É apenas através da análise (em vez da identificação e análise, como na análise tática) que o analista realmente contribui para a redução de um problema.
A análise de um problema começa com os dados policiais existentes. Tal como na análise tática, os analistas utilizam dados policiais para responder a questões básicas sobre quem, o quê, quando, onde e como, determinando hot spots e horários, perfis de vítimas e infratores, alvos comuns e modus operandi habituais.
Em geral, porém, os dados policiais são inadequados para explicar as causas profundas e os fatores de oportunidade subjacentes associados aos problemas. Para estes, os analistas recorrem à coleta de dados qualitativos que vão além do boletim de ocorrência.
Estes métodos qualitativos incluem entrevistas, avaliações grupos focais, pesquisas do ambiente onde o crime ocorre, e investigação externa. Em geral, os analistas utilizam dados policiais para formular hipóteses e depois testam essas hipóteses com pesquisas de campo adicionais. A análise dos dados e a pesquisa de campo formam, em conjunto, o relatório final dos analistas sobre o problema.
A resposta da agência policial a um problema de crime ou desordem não é mobilizar imediatamente os agentes para uma ação tática. A maioria das respostas que funcionam bem com padrões não funcionam bem com problemas. Quando confrontada com um problema, a agência procura estratégias e políticas que tenham um efeito a longo prazo.
1.1.3 Análise de inteligência criminal
No modelo proposto pela IACA, a análise de inteligência criminal se concentra nas pessoas. De acordo com esse modelo (baseado principalmente na polícia norte-americana) há equipes que se dedicam à coleta e tratamento de informações sobre indivíduos envolvidos na prática de crimes, bem como nas organizações e redes. Compõe o escopo do trabalho do analista de inteligência criminal os trabalhos focados em organizações criminosas, gangues, células terroristas etc. Há no modelo americano, portanto, a presença costumeira de equipes especializadas nesse tipo de análise criminal. Esse mesmo tipo de especialização não ocorrer com os demais tipos de análise criminal: tática, estratégica e administrativa.
Abordando-se especificamente o exemplo do modelo policial brasileiro, mormente das polícias militares, as quais são responsáveis pelo policiamento ostensivo e preservação da ordem pública, há uma estrutura (herdada do modelo militar) que distingue a atividade de inteligência da atividade de análise criminal por “áreas de resultado”. Enquanto a análise criminal fica subordinada às Seções de Planejamento e Emprego Operacional (P/3) a análise de inteligência criminal fica a cargo das Seções de Inteligência (P/2). Apesar desse modelo contribuir para a “especialização” do analista, há necessidade que haja uma sinergia e proximidade para que a análise seja realizada de maneira holística e, portanto, completa.
A análise de inteligência criminal normalmente se concentra em três caminhos para os quais o crime se concentra ao redor das pessoas:
- infratores individuais, comumente descritos como criminosos contumazes, reincidentes, ou, de maneira genérica, como criminosos em série; criminosos prolíficos (alta produtividade criminal) ou principais (ocupam importantes funções/papeis na articulação de organizações criminosas);
- vítimas reincidentes;
- organizações criminais e redes criminais.
A Análise de Inteligência Criminal compartilha com a Análise Estratégica a importância das coletas de informações. Os dados oriundos dos sistemas de registros policiais geralmente fornecem apenas uma parcela da história sobre cada fato (o que, onde, quando e informações sobre indivíduos – possíveis autores -, somente quando há identificação de autoria ou envolvimento nos delitos). Para identificar reincidências ou potenciais associações, tanto para aplicação da lei (prisão, investigação, indiciamento, denúncia, julgamento, cumprimento de pena), quando para medidas preventivas (dissuasão).
As informações complementares sobre os indivíduos, trabalhadas pela análise de inteligência criminal podem incluir:
- estruturas organizacionais, hierarquias, divisão de tarefas em redes criminais;
- locais de atuação de grupos criminosos;
- locais de homizio;
- redes de relacionamentos;
- métodos de recrutamento dentro de organizações criminosas;
- métodos de lavagem de dinheiro.
1.1.4 Análise Administrativa
A análise do crime administrativa é uma categoria ampla que inclui uma seleção eclética de relatórios administrativos e estatísticos, pesquisas e outros projetos não focados na redução ou eliminação imediata ou a longo prazo de um padrão ou tendência. Algumas questões que a análise operacional pode tentar responder são:
- Qual é a melhor maneira para a agência policial dividir a cidade em áreas ou setores?
- Qual é a alocação ideal de policiais por turno?
- Que efeito teve a política contra reincidência da violência doméstica?
Exemplos incluiriam:
- cálculos de carga de trabalhos dos policiais empregados numa determinada área ou determinada atividade;
- análise da designação de patrulhas para realização de atividades num determinado espaço territorial;
- relatórios sobre a atividade e desempenho de determinado setor ou policial;
- análise das operações realizadas pela força policial;
- análise da alocação dos recursos humanos, logísticos, tecnologias etc.;
- respostas à mídia;
- relatórios de crimes para a comunidade (accountability);
- análise de custo-beneficio da implementação de determinado serviço ou programa;
- apresentações dos dados criminais para consultas públicas ou uso interno da Agência Policial.
1.2 Considerações sobre os tipos de Análise Criminal
O esforço de classificação não é suficiente para que cada tipologia proposta seja totalmente excludente.
Há uma sobreposição entre a análise tática e estratégica, considerando a falta de precisão do que é “curto prazo” e “longo prazo”.
Outra sobreposição é identificada entre análise tática e análise de inteligência, dependendo do nível de informações estruturadas estão disponíveis para o analista tático (por exemplo se os infratores estão identificados nos boletins de ocorrência, o analista criminal consegue por si só realizar uma análise de padrão de cometimento quanto a autoria, modus operandi, meios utilizados, motivação etc.).
Uma terceira interseção possível ocorre entre a análise administrativa e análise estratégica. Um relatório sobre operações policiais, recursos empregados e efeitos na criminalidade, típico produto do analista administrativo, pode se transformar num relatório de tendências, por exemplo.
A motivação para a seleção das tipologias propostas pela IACA decorre da separação geral dos dados, as tarefas desempenhadas pelo analista e os resultados de cada uma das categorias.
1.3 Dimensões de cada tipo de Análise Criminal
Bruce (2017) baseando-se em IACA (2012) busca correlacionar os tipos de análise a quatro dimensões: fonte dos dados, importância do infrator no processo de análise, regularidade e velocidade e confidencialidade do produto.
- Fonte dos dados: a primeira questão se refere aos dados coletados pelo analista para realizar seu trabalho. Tanto a análise tática quanto a análise administrativa podem ser realizadas em grande parte por meio de dados oriundos dos bancos de dados existentes na Agência policial – dados de demanda provenientes dos sistemas de Controle de Atendimento e Despacho (CAD) e banco de dados de boletins de ocorrência. Já a análise de inteligência criminal e a análise estratégia demandam a coleta de dados de outras fontes, sejam elas fontes primárias (coletadas diretamente pelo analista ou pessoal da polícia) ou de outras fontes externas (sociodemográficas, econômicas, de infraestrutura, saúde, transportes, órgãos fazendários etc.) de modo a se realizar análises mais amplas para identificação de pessoas e identificação de tendências de longo prazo;
- Importância do infrator no processo de análise: com exceção à análise de revitimização, em que a vítima é o fator central do processo, nos demais casos o infrator é o fator primordial na análise de inteligência criminal. Da mesma forma, na análise tática, também se busca a identificação de padrões de autoria, modus operandi, meios utilizados e motivação dos crimes. Já no caso da análise estratégica considerando-se a busca por tendências e soluções de problemas de longo prazo o papel do infrator é somenos importante. O mesmo ocorre para a análise administrativa, já que o foco deste tipo é diverso e independente da identificação individual de infratores.
- Regularidade e velocidade: a análise tática é um processo diário em que o analista busca por padrões emergenciais (para aplicação imediata) e a regularidade das solicitações de análise administrativa também costumam ser frequentes. Já a análise estratégica e de inteligência criminal costumam ser processos, devido a sua complexidade, mais lentos e mais caros, que produzem, portanto, produtos com menos frequência. A regularidade e velocidade está correlacionada à primeira dimensão (o acesso e disponibilidade dos dados influencia diretamente na regularidade e velocidade do processo).
- Confidencialidade do produto: a quarta dimensão refere-se à publicidade e acesso aos resultados do processo de análise. Os produtos da análise tática e de inteligência criminal são quase mantidos em sigilo para não comprometer uma estratégia de investigação ou de prevenção. Já a análise administrativa e a análise estratégica têm maior potencial e probabilidade de informar o público fora da agência policial.

Bruce (2017)
[1] Agência é um termo genérico que abrange as autoridades responsáveis pela aplicação da lei, incluindo patrulhas, investigação, resposta a emergências, prevenção e funções de serviço comunitário.
[2] Essas ações de resposta serão abordadas mais minuciosamente adiante neste livro.
[3] Síntese das principais perguntas que devem conduzir tanto a investigação quanto a análise criminal.
