Postado em: Atualizado em:

Resumo

O estudo sobre o “Efeito Lúcifer” apresentado por Philip Zimbardo explora como indivíduos comuns podem ser influenciados por forças situacionais a cometerem atos cruéis. A pesquisa, baseada no famoso Experimento da Prisão de Stanford, revela como o poder, a desumanização, a conformidade e a obediência a autoridades podem transformar pessoas aparentemente normais em agentes de violência. Ao longo do experimento, a dinâmica entre guardas e prisioneiros escalou rapidamente para comportamentos abusivos, mostrando como as circunstâncias e a pressão social podem levar à despersonalização e ao mal. Em contraste, Zimbardo também defende a ideia da “banalidade do bem”, argumentando que o heroísmo pode emergir em qualquer pessoa, dependendo das condições.

Palavras-chave: desumanização; conformidade; obediência; mal da inação; banalidade do bem; heroísmo; poder situacional.

1 Introdução

O comportamento humano em situações extremas, principalmente em contextos de poder e autoridade, tem sido um tema amplamente estudado pela psicologia social ao longo das últimas décadas. Esses estudos buscam entender como pessoas aparentemente comuns podem ser influenciadas a adotar comportamentos cruéis ou desumanos, especialmente em cenários que envolvem opressão, violência ou sistemas hierárquicos rígidos.

O famoso Experimento da Prisão de Stanford, conduzido por Philip Zimbardo em 1971, destaca-se como um dos maiores exemplos dessa investigação, revelando as forças situacionais que moldam o comportamento das pessoas quando assumem papéis de guardas e prisioneiros. Philip Zimbardo, mentor de um famoso experimento em Stanford, conta a história dessa pesquisa na obra “Efeito Lúcifer: como pessoas boas se tornam más”, na qual um grupo de estudantes universitários voluntários foi dividido aleatoriamente em guardas e prisioneiros num ambiente de prisão simulado.

O objetivo central do experimento era investigar os efeitos psicológicos do aprisionamento, focando como o ambiente prisional e as atribuições de papéis podem influenciar o comportamento humano A atividade foi realizada em agosto de 1971 na Universidade de Stanford com duração prevista para duas semanas.

O objetivo central deste artigo é apresentar os processos psicológicos e sociais que influenciam o comportamento humano em ambientes de extrema pressão, com ênfase nos conceitos de desumanização, desindividuação e obediência à autoridade. Para tanto, foi utilizado o “Efeito Lúcifer”, que explora como pessoas boas podem cometer atos de crueldade diante de certas circunstâncias. A análise deste fenômeno é complementada com discussões sobre a obediência cega, explorada nos experimentos de Stanley Milgram, e a inação em face da injustiça, elucidada por Latané e Darley no estudo do “efeito do espectador”. Além disso, a obra de Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal”, inspirada pelo julgamento de Adolf Eichmann, é fundamental para compreender como a normalidade de indivíduos envolvidos em sistemas opressivos pode levar à perpetuação de atrocidades. Zimbardo contrapõe a ideia da banalidade do mal de Arendt indicando que, da mesma forma que pode existir a banalidade do mal também se observa a “banalidade do bem” e a “banalidade do heroísmo”, que sugere que, assim como o mal, o heroísmo pode surgir de indivíduos comuns diante de circunstâncias apropriadas.

A análise das variáveis situacionais que permitem a emergência tanto do bem quanto do mal é conduzida com base nas observações e resultados do experimento de Zimbardo, demonstrando como essas forças moldam as escolhas individuais em contextos desafiadores.

2 O método do experimento

Zimbardo selecionou 24 homens, de um total de 75 candidatos, todos estudantes universitários, após submetê-los a uma série de avaliações psicológicas e físicas que garantiram que estavam mental e fisicamente aptos. O intuito era excluir qualquer pessoa com histórico de problemas psicológicos ou comportamento agressivo. A maioria dos estudantes era branca, de classe média, e foram escolhidos por serem considerados “normais”, sem tendências criminais.

Esses 24 participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: guardas e prisioneiros. A distribuição foi feita por sorteio, assegurando que nenhum dos participantes soubesse com antecedência qual papel desempenharia. Doze foram designados como prisioneiros e doze como guardas, sendo que três guardas e três prisioneiros assumiam seus papéis em turnos, permitindo que a simulação ocorresse ininterruptamente durante as 24 horas de cada dia do experimento.

Zimbardo e sua equipe montaram uma prisão fictícia no subsolo do Departamento de Psicologia da Universidade de Stanford. O local foi preparado para reproduzir um ambiente prisional autêntico, com celas pequenas, uniformes adequados para prisioneiros e guardas, além de uma área para vigilância. O espaço contava com câmeras e microfones para monitoramento constante dos participantes.

Aqueles designados como prisioneiros foram levados à prisão de maneira verossímil: policiais reais os prenderam em suas casas, sem qualquer aviso prévio, sob a acusação de roubo à mão armada. Os participantes foram levados à delegacia, onde passaram por procedimentos como registro, fotografia, revista, desnudamento e higienização, tudo para aumentar o realismo da experiência.

Dentro da prisão simulada, os prisioneiros usavam uniformes simples, semelhantes a uma bata, com números de identificação, sem roupas íntimas, além de correntes presas aos tornozelos. Eles eram chamados apenas pelos seus números, ao invés de seus nomes, intensificando a despersonalização.

Os guardas, por sua vez, vestiam uniformes e óculos de sol espelhados, evitando o contato visual direto com os prisioneiros, o que contribuía para a despersonalização e reforçava a autoridade. Além disso, receberam bastões e a responsabilidade de impor regras e manter a ordem, com a instrução clara de que a violência física estava proibida. Entretanto, o poder concedido aos guardas foi deliberadamente elevado para investigar os efeitos psicológicos do exercício de autoridade e do abuso de poder.

3 Desenvolvimento do experimento

O experimento teve início de maneira relativamente tranquila, mas rapidamente os papéis assumiram uma dinâmica mais intensa.

Os detentos, a princípio, demonstraram sinais de resistência, organizando pequenas rebeliões e se recusando a obedecer às ordens impostas pelos vigilantes. Os guardas, que inicialmente exibiam uma postura mais contida, logo começaram a estabelecer normas mais rigorosas e, em pouco tempo, passaram a humilhar e submeter os prisioneiros a castigos psicológicos severos, como obrigá-los a realizar flexões, privação de sono, confinamento solitário e insultos constantes. Diversos prisioneiros manifestaram indícios de estresse extremo.

À medida que o experimento avançava, os guardas se tornaram progressivamente mais abusivos e cruéis, enquanto os prisioneiros, por outro lado, começaram a enfrentar colapsos emocionais, perda de identidade e despersonalização. Os guardas criaram uma hierarquia própria, passando a enxergar os prisioneiros como inferiores e insubordinados, o que justificava, em suas mentes, os maus-tratos. Em determinados momentos, forçaram os detentos a realizar tarefas degradantes, como limpar os vasos sanitários com as mãos nuas.

A simulação foi tão impactante que vários prisioneiros começaram a exibir sinais de sofrimento psicológico agudo, levando cinco deles a serem retirados antes do fim do estudo. Esses prisioneiros apresentavam sintomas de angústia emocional, como choro incontrolável e explosões de raiva.

Em relação aos detentos, uma das principais observações destacadas após a conclusão do experimento foi a perda de identidade, consolidada quando foram transformados em prisioneiros. Dentro do confinamento, seus nomes não eram mais utilizados, sendo identificados apenas pelos números atribuídos. Parecia que seu passado havia sido apagado e qualquer perspectiva de futuro se tornara inatingível. Estavam presos em um presente imutável, sem qualquer tipo de alívio ou estímulo que os protegesse contra as torturas e humilhações. A vergonha também desempenhou um papel crucial no enfraquecimento de seus princípios. Quando familiares os visitavam, as instruções dos guardas eram claras: não deveriam, sob nenhuma circunstância, mencionar os abusos sofridos. Ainda que fosse uma prisão simulada, na qual teoricamente poderiam pedir para sair a qualquer momento ou relatar qualquer violação, eles não o fizeram. Pelo contrário, continuaram a se comportar como indivíduos submissos, presos não apenas naquele porão de Stanford, mas também dentro das barreiras de sua própria liberdade.

O comportamento observado dos presos pode ser entendido como uma expressão do desemparo aprendido. “O desamparo apreendido [Learned helplessness] é a experiência de passiva resignação e depressão que se segue a fracassos e punições recorrentes, especialmente quando estas parecem arbitrárias e não contingentes à ação de alguém” (Zimbardo, 2013, p. 280). Esse tipo de comportamento que pode ser verificado em mulheres e crianças vítimas de abusos, prisioneiros de guerra e idosos residentes em asilos.

Findo o período de cinco dias o que se pôde testemunhar da prisão de Stanford   foi uma realidade tal como a de qualquer prisão. Não havia humor, descontração, ou mesmo qualquer interação amigável entre os grupos. O que restava era apenas cansaço, físico e psicológico, irritabilidade fácil e constante, para os detentos qualquer resposta aos abusos sofridos deteriorava ainda mais seu comportamento, de tal forma que no    decorrer do tempo estavam dispostos a ceder as torturas e abusos.

Neste sentido, importante relatar que esta atitude de subordinação bem como as atrocidades cometidas pelos guardas não atingiu a todos que participaram do experimento. Existiram aqueles que mantiveram suas convicções, resistindo a todas as circunstâncias e situações adversas.

3.1 A interrupção do experimento

Christina Maslach, Ph.D. em Psicologia Social pela Universidade de Stanford juntou-se a equipe de Zimbardo pouco antes de o experimento atingir a sua metade, notório foi seu relato acerca dos acontecimentos assim como sua interferência foi crucial para o término prematuro desta importante experiência, diante de todos os abusos que presenciara.

Mais tarde, um dos membros da pesquisa disse-me que eu deveria dar uma olhada no pátio novamente, porque o novo guarda da madrugada havia entrado, e este era o turno do notório ‘John Wayne’. Este era o apelido do guarda mais durão e cruel de todos, sua reputação o precedera em vários relatos que ouvira. É claro, estava ansiosa para ver quem ele era, o que fazia para atrair tanta atenção. Quando olhei pelo local de observação, fiquei absolutamente estupefada de ver que aquele a quem chamavam de John Wayne era o ‘sujeito muito bom’ com quem conversara a pouco. Só que agora ele era outra pessoa. […] Era uma transformação impressionante com quem acabara de conversar – uma transformação que se dera em minutos, apenas atravessada a linha que divide o mundo externo e o pátio da prisão. Com seu uniforme militar, cassetete na mão, e óculos de sol prateados para ocultar os olhos […], este sujeito era um eficiente guarda de prisão, decidido e realmente cruel. (Zimbardo, 2013, p. 245-246).

O experimento foi interrompido após seis dias por meio da intervenção de Christina Maslach devido à gravidade dos abusos e grave impacto emocional sobre os prisioneiros.

4 Análise a partir dos processos psicológicos observados no experimento

Zimbardo, partindo das consequências e especificidades detalhadas em torno do Experimento da Prisão de Stanford, apresenta alguns processos psicológicos que, em maior ou menor grau, tem o poder de sujeitar indivíduos aparentemente normais a cometerem atos até então impensáveis contra outras pessoas. As dinâmicas sociais identificadas foram: poder, conformidade e obediência; desindividuação, desumanização e o mal da inação.

A desumanização é o processo central nessa modificação de comportamento, uma vez que diminui os outros a condição de seres inferiores e, por consequência, merecedores de sofrimento e aniquilação.

Para Zimbardo, a linha que deveria existir entre sujeitos bons e maus divisória pode ser – e geralmente é – muito mais tênue do que se imagina. Segundo os resultados do seu experimento, não são apenas pessoas incomuns, portadoras de alguma patologia as responsáveis por uma conduta desviante, antes qualquer cidadão comum, saudável, do ponto de vista médico é capaz de cometer atrocidades. Em outras palavras “qualquer ato que tenha sido cometido por um ser humano, não importa quão terrível, pode ser cometido por qualquer um de nós – sob circunstâncias situacionais certas ou erradas” (Zimbardo, 2013, p. 300).

4.1 Papeis

Os “papéis” são formas de comportamento das pessoas. Está associado a diferentes relações, situações ou locais. A todo momento as pessoas exercem distintos papéis, os quais podem mudar em segundos ou a partir de um fato novo. Cada papel tem um conjunto de normas, expectativas e comportamentos individuais.

Um dos pioneiros no desenvolvido da Teoria dos Papeis, Erving Goffman, em seu trabalho The presentation of self in everyday life sobre a “encenação da vida cotidiana”, destacou que os indivíduos muitas vezes “atuam” em diferentes papéis, dependendo da audiência e do cenário social, comparando a vida social a uma performance teatral.

As pessoas desempenham diferentes papéis sociais com base nas expectativas associadas às suas posições em um grupo ou sociedade. Esses papéis são conjuntos de comportamentos, atitudes e responsabilidades que as pessoas adotam de acordo com sua posição em uma estrutura social, como família, trabalho ou comunidade.

Na perspectiva da teoria sobre papeis sociais, tem-se os seguintes aspectos fundamentais:

  1. papéis sociais: São padrões de comportamento esperados de indivíduos em determinadas posições sociais. Por exemplo, o papel de “professor” envolve ensinar e orientar os alunos, enquanto o papel de “aluno” envolve aprender e respeitar as regras da instituição.
  2. expectativas de papéis: Cada papel vem com um conjunto de expectativas sobre como o indivíduo deve agir. Essas expectativas são moldadas pela cultura, normas sociais, e interações entre as pessoas. Quando alguém não cumpre essas expectativas, pode haver conflitos ou tensões sociais.
  3. conflito de papéis: Ocorre quando uma pessoa ocupa múltiplos papéis cujas expectativas são incompatíveis entre si. Por exemplo, uma pessoa pode ser tanto um funcionário dedicado quanto um pai ou mãe atencioso. Se as demandas de tempo e energia de ambos os papéis entrarem em conflito, isso pode gerar estresse.
  4. desempenho de papéis: Refere-se à maneira como as pessoas escolhem ou são capazes de atuar de acordo com as expectativas de seus papéis. O desempenho pode variar de acordo com o contexto, as interações sociais e a flexibilidade que a pessoa tem dentro de cada papel.
  5. aquisição e socialização de papéis: Os papéis são aprendidos através de processos de socialização, em que os indivíduos absorvem normas e expectativas de comportamento desde a infância, com base nas interações com a família, escola e outros ambientes sociais.

Neste sentido, os papeis não estão restritos às interpretações teatrais e cinematográficas, ao contrário, estão presentes nas relações diárias, como, por exemplo, no exercício profissional, na rotina familiar como pai, ou em outro momento como marido, ou ainda em outra situação como filho etc. Cada um carrega consigo uma dinâmica social diversa e define um padrão comportamental específico.

A vivência do papel cotidiano de um personagem da vida real, constitui, por vezes, retirar-se de seu verdadeiro eu, o que até certo ponto não interfere de modo algum na realidade alheia. Não obstante, o problema surge quando esse papel toma a realidade de tal forma que o indivíduo passe a agir não da maneira como é, mas como é definido pelas expectativas em relação ao papel, podendo, nesses casos, assumir uma identidade cruel ou perversa. E, à medida que, dentro desse personagem começam a surgir recompensas advindas de sua atuação, o comportamento pode efetivamente sofrer uma mudança extrema.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), sob o comando de Adolf Hitler, médicos da SS diariamente exterminavam, de forma violenta e impiedosa milhares de judeus, fossem adultos, crianças ou idosos. Ausente qualquer intuito de defender ou legitimar os atos perversos dos médicos nazistas, Zimbardo propõe a compreensão e possíveis causas para diagnosticar as motivações que resultaram em tantas mortes desnecessárias. Como forma de apaziguar os conflitos psicológicos, entra em ação a chamada “compartimentalização” (Zimbardo, 2013, p. 304), um mecanismo de defesa do ego capaz de retirar do indivíduo toda a carga emocional negativa presente naquele momento em que comete suas atrocidades, em outras palavras seria uma defesa mental do próprio indivíduo para eximir a si mesmo de toda a culpa e imoralidade de suas ações, como se naquele instante por estar agindo em nome de seu personagem, este fosse o único responsável, estranho aquilo que o sujeito de fato é.

Esta condição pôde ser exemplificada pelo comportamento da defesa de algumas lideranças nazistas no julgamento de Nuremberg. Na oportunidade, declararam que as atrocidades cometidas ocorreram pelo fato de estarem apenas cumprindo ordens. Para Zimbardo (2013), tal relato seria uma variante de “Não me culpe, eu estava apenas representando meu papel naquele tempo e naquele lugar – este não é meu verdadeiro eu” (Zimbardo, 2013, p. 309).

4.1.1 Pressões sociais

Ainda que inconscientemente, é certo que a sociedade espera que um guarda seja forte, apresente um comportamento firme e, por vezes, controlador. Ao passo que, em relação ao prisioneiro este, em princípio não deve ser resiliente, antes precisa “pagar por seus atos”, sofrer as consequências, não importa quais métodos sejam empregados. A construção social em torno da realidade (Zimbardo, 2013, p. 313) exige que cada indivíduo cumpra seu papel.

Portanto, em muitos casos não será a vestimenta que tornará o sujeito cruel, mas a formação de seu comportamento e, principalmente a necessidade de ser aceito a partir daquilo que a sociedade espera dele.

4.2 Desindividuação

Associado à possibilidade de emergir os mais profundos ímpetos a partir de um personagem que cumpre seu papel, surge um fator psicológico legitimador do poder das circunstâncias, o anonimato ou desindividuação.

No meio da multidão é muito mais provável que o impulso se sobreponha a cautela, somos predispostos a agir, sobretudo a demonstrar nosso lado menos admirável quando nos sentimos anônimos, sujeitos sem identidade, sem uma identificação particular.

No ambiente prisional, vestidos como guardas, com suas fardas, seus cassetetes, seus óculos escuros, o que se presencia não são pessoas, sujeitos, mas sim um grupo de pessoas, vistas como um todo, ou seja, anônimos e desindividuados.

4.3 Desumanização

Um dos mais consideráveis processos psicológicos caracterizadores da mudança de um comportamento normal para a prática de crueldades apresentado por Philip Zimbardo se remete a desumanização do outro.

Nessa transmutação de caráter o olhar sobre o outro prescinde de humanidade, ou seja, determinados indivíduos são caracterizados precocemente como desprovidos de sentimentos, pensamentos, vontades, desejos, amor ou qualquer outra característica inerente a um ser humano. Zimbardo utilizando dos termos de Martin Buber,

[…] relacionamentos humanizados são “Eu–Tu”, enquanto relacionamentos desumanizados são “Eu–Isso”. Com o tempo, o agente desumanizador é frequentemente sugado para a negatividade da experiência, e então o próprio “Eu” muda, para produzir um relacionamento “Isso–Isso” entre objetos, ou entre agência e vítima. A percepção errônea de certos outros como subumanos, humanos maus, desumanos, infra-humanos, dispensáveis ​​ou “animais” é facilitada por meio de rótulos, estereótipos, slogans e imagens de propaganda (Zimbardo, 2013, p. 316).

Uma das raízes do preconceito se remete a desumanização do outro, como se este apresentasse desde sempre uma “identidade estragada” (Zimbardo, 2013, p. 430). O sentimento de poder e dominação que nasce com essa descrença em relação a outro ser humano, talvez seja o fator determinante para a legitimação pelo próprio agressor de suas atitudes arbitrárias.

4.4 Inação

O mal da inação (evil of inaction) é fator igualmente determinante para a proliferação de condutas arbitrárias.

Conforme ressalta Zimbardo, o mal se prolifera não apenas nas condutas repulsivas, atos de violência, discursos de ódio. Antes ele se encontra naqueles lugares ocupados por pessoas vazias, que diante de um discurso silencioso “olha mas não vê”, “escuta, mas não ouve” (Zimbardo, 2013, p. 439). Nesse ponto, o questionamento se reporta aos motivos que levam algumas pessoas a presenciaram atos abusivos contrários as normas de bem viver em sociedade a permanecerem inertes mesmo quando tem o poder de modificar a situação.

Esse mal da inação ou “evil of inaction” tem sido um tema de estudo em várias áreas da psicologia, particularmente na psicologia moral e social. Este conceito aborda como as pessoas frequentemente falham em agir diante de situações moralmente problemáticas, mesmo quando têm a capacidade de intervir, sendo um dos aspectos do fenômeno do “bystander effect” (efeito do espectador). Algumas experimentações psicológicas analisaram esse comportamento e as razões que levam à inação.

Latané e Darley realizaram um famoso estudo o mal da inação e Efeito do Espectador (1968). Latané e Darley conduziram uma série de experimentos para investigar por que, em situações de emergência, muitas vezes as pessoas não intervêm. Eles descobriram que a presença de outras pessoas reduz a probabilidade de alguém ajudar uma vítima, um fenômeno que ficou conhecido como o “bystander effect“. Um dos experimentos envolvia colocar indivíduos em uma sala onde um ator simulava um ataque epiléptico. Quando os participantes estavam sozinhos, a maioria ajudava rapidamente; mas, quando havia mais pessoas presentes, a responsabilidade era difusa, e a ajuda demorava mais ou não acontecia.

O famoso caso Kitty Genovese é um exemplo importante para a compreensão de que mesmo em ambientes repletos de pessoas podemos não estar protegidos das adversidades e perigos em sociedade e geralmente não estamos. “Por mais de meia hora, no Queens [Nova York], 38 cidadãos respeitáveis e cumpridores da lei testemunharam um assassino perseguir e esfaquear uma mulher em três ataques separados, em Kew Gardens. Por duas vezes, o som de suas vozes e o acender repentino das luzes de seus quartos o interromperam e afugentaram. A cada vez, ele retornava, procurava-a e a esfaqueava novamente. Nem uma pessoa sequer telefonou à polícia durante o ataque; uma testemunha ligou para a polícia depois que a mulher estava morta [The New York Times, 13 de março de 1964]”. (pág. 440). “Kitty morreu sozinha em uma escadaria, onde não mais conseguiu escapar de seu assassino enlouquecido” (Zimbardo, 2013, p. 440).

Outro exemplo:

Uma secretária de 18 anos foi espancada, sufocada, despida e estuprada em seu escritório. Quando finalmente conseguiu se livrar do assaltante, nua e sangrando, ela desceu correndo as escadas do prédio até a entrada gritando ‘Ajudem! Ajudem! Ele me estuprou!’ Uma multidão de cerca de 40 pessoas se juntou na rua movimentada e observou quando o estuprador a agarrou de volta escada acima para continuar seu abuso. Ninguém foi em seu socorro! Apenas a chegada casual de policiais que passavam impediu a continuação do abuso e um possível assassinato (The New York Times, 6 de maio de 1964)”. (Zimbardo, 2013, p. 440-441).

Segundo Latané e Darley, é evidente que o mal da inação ocorre devido à crença de que outra pessoa assumirá a responsabilidade de intervir em situações de agressão. Assim, quanto maior o número de indivíduos presentes em um cenário de violência, menor é a chance de alguém tomar a iniciativa de agir. Individualmente, muitas pessoas tendem a desempenhar seu papel social quando são chamadas a cooperar, mas em um grupo, a pressão para agir e o senso de responsabilidade pessoal diminuem significativamente. Outro aspecto relevante é o receio de alguns indivíduos de contribuir de maneira inadequada e, consequentemente, serem vistos como ineficazes, especialmente em situações em que a intervenção não é obrigatória. Em um ambiente com várias pessoas, prevalece a tendência de “inação passiva”.

Outros estudos expandiram a investigação do efeito do espectador, explorando a indiferença e a difusão de responsabilidade. Esses experimentos examinaram como fatores como anonimato, normas sociais e autoridade influenciam a inação. Um exemplo inclui a experiência em que os participantes eram colocados em uma sala com fumaça começando a encher o ambiente. Quando estavam sozinhos, a maioria relatava o incidente rapidamente. No entanto, quando estavam com outras pessoas que não reagiam, os participantes muitas vezes não faziam nada, mesmo quando o perigo parecia óbvio.

O mal da inação não se limita apenas a indivíduos anônimos, imersos no anonimato de uma multidão. Como destaca Zimbardo, há uma institucionalização desse comportamento de não intervir, de não agir, de deixar que outros assumam a responsabilidade. Isso pode ser observado, por exemplo, em policiais que ignoram as ações agressivas de seus colegas quando estas são direcionadas a uma minoria que, possivelmente, foi desumanizada.

Esses estudos ilustram que o “mal da inação” não resulta apenas de falta de empatia ou indiferença, mas é frequentemente influenciado por contextos sociais, normas e dinâmicas de grupo, tendo o fator da presença de outras pessoas e a difusão da responsabilidade como elementos significativos para entender como e por que as pessoas podem não agir em situações que demandam intervenção.

4.5 Obediência e normas institucionais

Para entender como tantas pessoas comuns puderam cometer atos cruéis durante o Holocausto, o psicólogo social Stanley Milgram realizou um dos mais influentes experimentos sobre a obediência à autoridade. Seu experimento, conhecido como o “paradigma da obediência de Milgram” (Zimbardo, 2013, p. 375), tinha como objetivo avaliar a obediência humana sob pressão, simulando um teste de memória e aprendizado.

O experimento começava com a seleção de dois indivíduos, um destinado ao papel de “professor” e o outro, supostamente sorteado, ao papel de “aluno” — embora, na realidade, o aluno fosse um ator participante do estudo. O aluno deveria memorizar palavras e, a cada acerto o professor poderia lhe dar uma recompensa, mas sempre que cometia um erro, o professor, orientado por um pesquisador, aplicava choques elétricos cuja intensidade aumentava progressivamente a cada erro. O aluno ficava em uma sala separada, enquanto o professor, guiado pelo pesquisador, administrava os choques.

À medida que os erros se acumulavam e os gritos de dor do aluno ficavam mais intensos, os professores começaram a questionar a necessidade de continuar a aplicação dos choques. Muitos se mostraram desconfortáveis com o sofrimento que estavam causando, questionando o pesquisador sobre a obrigatoriedade de seguir adiante. Nesse momento, o pesquisador intervinha, insistindo que o professor deveria continuar afirmando que era essencial para o experimento e que ele não tinha outra escolha, uma vez que havia concordado em participar até o final.

O poder da autoridade e das regras impostas foi um fator decisivo para que muitos professores seguissem até o fim, apesar do desconforto crescente. Na maioria dos casos, a única solução encontrada pelos participantes para escapar da situação angustiante era concluir o experimento o mais rapidamente possível, mesmo quando o aluno parava de responder, indicando que os choques já haviam atingido um nível insuportável.

Após o experimento, Milgram pediu a psiquiatras que estimassem quantos dos participantes chegariam ao nível máximo de choques. A previsão inicial sugeria que menos de 1% dos professores alcançaria esse ponto. No entanto, essa previsão estava completamente equivocada. Conforme os resultados do experimento, dois terços dos participantes (Zimbardo, 2013, p. 380) levaram os choques até a intensidade máxima, aplicando a máxima dor ao aluno, apesar de ser um cenário controlado em que os choques não eram reais.

A explicação para o erro dos psiquiatras estava no fato de que suas estimativas não levavam em conta o poder das circunstâncias e da autoridade, focando apenas nas características individuais de cada participante. Embora muitos professores se mostrassem desconfortáveis e relutantes, poucos conseguiram romper com a influência da figura de autoridade que supervisionava o experimento. Fatores como a distância entre o professor e o aluno também desempenharam um papel importante: quanto maior a separação entre eles, menor a empatia sentida, o que facilitava a continuação do experimento.

4.6 Banalidade do mal, do bem e do heroísmo

A filósofa social Hannah Arendt publicou uma de suas obras mais influentes, especialmente relevante nos dias de hoje. Em Eichmann em Jerusalém: A Banalidade do Mal, Arendt faz uma análise profunda do julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pelo extermínio de milhões de judeus durante o regime nazista. Em sua defesa, Eichmann utilizou-se do argumento, comum entre seus colegas nazistas, de que “estava apenas cumprindo ordens” (Zimbardo, 2013, p. 404).

Com base nessas observações, Arendt chegou a conclusões impactantes. Ela afirmou que o problema de Eichmann residia no fato de que muitos eram exatamente como ele: pessoas comuns, sem inclinações perversas ou sádicas, mas assustadoramente normais. Para Arendt, essa normalidade era muito mais aterrorizante do que as próprias atrocidades cometidas, pois indicava a existência de um novo tipo de criminoso. Este novo criminoso agia em circunstâncias que dificultavam ou até impossibilitavam que ele reconhecesse ou sentisse que estava fazendo algo errado. Em suas palavras, nos últimos momentos da vida de Eichmann parecia que ele estava resumindo a lição mais inquietante aprendida com o longo curso da maldade humana: a lição da “banalidade do mal”, algo que desafia tanto as palavras quanto os pensamentos (Zimbardo, 2013, p. 404-405).

A partir dessa análise, Zimbardo sugere um movimento oposto ao conceito de Arendt, propondo a “banalidade do bem”. Ele observou, durante o Experimento da Prisão de Stanford, que em meio ao caos do ambiente prisional simulado, alguns estudantes se mantiveram firmes em seus valores e crenças. Para Zimbardo, assim como o mal pode emergir de forma inesperada em pessoas comuns, a bondade também pode surgir nos lugares mais inóspitos e carregados de negatividade. Embora sobreviver nesses ambientes exija grande força de vontade, ele acredita ser possível resistir ao mal presente.

Zimbardo propõe celebrar o herói comum, argumentando que qualquer pessoa pode se tornar um herói ou um perpetrador do mal, dependendo das circunstâncias que a cercam. Ele ressalta a importância de descobrir como limitar e prevenir as influências sistêmicas e situacionais que levam algumas pessoas a cometerem atos de maldade. Ele afirma que é necessário transmitir a mensagem de que cada um de nós é um herói em potencial, pronto para agir de maneira justa quando for chamado a tomar decisões cruciais. Segundo ele, devemos estar preparados para reconhecer e celebrar aqueles que, ao descobrir suas forças e virtudes ocultas, se levantam contra a injustiça e a crueldade, mantendo-se fiéis aos seus princípios morais (Zimbardo, 2013, p. 669).

O conceito de “banalidade do heroísmo” postula que qualquer pessoa comum tem a capacidade de ser um herói. Frequentemente, duvidamos dessa possibilidade, e quando alguém realiza atos heroicos, tendemos a elevá-lo a um patamar de superioridade, da mesma forma que marginalizamos aqueles que cometem o mal. Enquanto o herói é glorificado, o vilão é relegado às margens da sociedade.

Como Zimbardo enfatiza, a “banalidade do heroísmo” significa que todos somos heróis em potencial. Trata-se de uma escolha que qualquer um de nós pode ser chamado a fazer em algum momento. Ao ver o heroísmo como uma característica igualitária da natureza humana, e não como algo reservado a poucos, Zimbardo acredita que podemos incentivar mais ações heroicas em todas as comunidades (Zimbardo, 2013, p. 671)

5 Conclusões

O “Efeito Lúcifer” evidencia que o comportamento humano é altamente influenciado por forças situacionais e sistêmicas, capazes de transformar indivíduos comuns em perpetradores de crueldades. A partir do Experimento da Prisão de Stanford, Zimbardo demonstrou que, quando colocados em ambientes de poder desproporcional, como o cenário prisional simulado, os participantes assumiram papéis sociais que os levaram a comportamentos abusivos. A perda de identidade, a desindividuação e a desumanização dos outros foram fatores centrais para essa transformação. Guardas, que inicialmente agiam de maneira contida, gradualmente passaram a exercer seu poder de forma opressiva, enquanto prisioneiros, submetidos a humilhações, perderam o senso de autonomia e resistência.

Além das influências situacionais, o estudo destacou o papel da obediência à autoridade. A simples presença de uma figura de autoridade que validava os atos dos guardas foi suficiente para que muitos deles se envolvessem em comportamentos que normalmente seriam considerados moralmente inaceitáveis. Isso reforça a tese de que, em contextos hierárquicos, a pressão por conformidade e o medo de desafiar ordens podem reduzir significativamente a capacidade dos indivíduos de agir de acordo com seus princípios éticos. A obediência cega a normas e figuras de autoridade foi um elemento crucial para a perpetuação de abusos durante o experimento, evidenciando um paralelo com situações de opressão no mundo real, como no Holocausto e em regimes autoritários.

No entanto, Zimbardo também argumenta que o mesmo ambiente que facilita o surgimento do mal pode, paradoxalmente, ser um palco para o florescimento do bem. A teoria da “banalidade do bem” sugere que o heroísmo não é uma qualidade restrita a indivíduos excepcionais, mas uma possibilidade acessível a qualquer pessoa, dependendo das circunstâncias. Assim como o mal pode emergir em situações extremas, o bem também pode ser exercido por indivíduos comuns, desde que resistam às influências negativas e mantenham sua integridade moral. O herói, neste contexto, é alguém que, mesmo diante de pressões sociais e sistêmicas, escolhe agir em defesa do outro, mesmo correndo riscos.

Por fim, a compreensão das dinâmicas situacionais apresentadas por Zimbardo é fundamental para que possamos identificar e neutralizar as forças que podem levar ao abuso de poder em diversos contextos institucionais, como sistemas prisionais, militares e corporativos. A análise dessas influências oferece uma importante ferramenta para prevenir atrocidades e promover a construção de ambientes sociais mais justos e éticos, onde o bem possa prevalecer sobre o mal. Zimbardo conclui que, ao reconhecer a fragilidade do comportamento humano diante de certas pressões, podemos construir mecanismos de resistência, cultivando o heroísmo e o respeito mútuo em todas as camadas da sociedade.

Referências

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. 5ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

GOFFMAN, Erving. The presentation of self in everyday life. In: Social theory re-wired. Routledge, 2023. p. 450-459.

LATANÉ, Bibb; DARLEY, John. The unresponsive bystander: why doesn’t he help? New York: Appleton-Century Crofts, 1970.

MILGRAM, Stanley. Behavioral study of obedience. Journal of Abnormal and Social Psychology, 1963, 67(4), 371-378.

ZIMBARDO, Philip. O Efeito Lúcifer: Como Pessoas Boas se Tornam Más. Trad. Rafael. Zahar, 2013.

Encontrou algum erro no conteúdo?

    Reporte o erro preenchendo o formulário abaixo.


    Como citar este texto

    FARIA. Antônio Hot. Análise de efeito lúcifer: como pessoas boas se tornam más. CJPol, Brasília/DF. Disponível em: <https://cjpol.com.br/atividade_policial/analise-de-efeito-lucifer-como-pessoas-boas-se-tornam-mas/>. Acesso em: 19/10/2026.