1 Introdução
A justificativa do projeto de pesquisa é uma parte crucial que busca demonstrar a relevância e importância do trabalho científico. Ela responde à pergunta “por que este estudo é necessário?”, fornecendo embasamento para a realização da pesquisa em termos científicos, práticos e sociais.
Ao justificar um estudo, o pesquisador deve explorar o impacto potencial da pesquisa e como ela pode contribuir para o avanço do conhecimento e da sociedade. Neste texto, busca-se analisar as principais formas de justificar um projeto nos âmbitos científico/acadêmico, prático e social, além de discutir a tríplice hélice, que interliga universidade, governo e indústria como partes interessadas em um projeto científico robusto.
2 Aspectos de relevância do trabalho científico: tipos de justificativa para projeto de pesquisa
Ao elaborar um projeto de pesquisa, é fundamental que o pesquisador demonstre de maneira clara a relevância do seu trabalho, justificando a escolha do tema e o impacto que o estudo poderá gerar. No projeto de pesquisa, a justificativa é a seção na qual o autor deve explicar por que sua pesquisa merece ser realizada e qual será sua contribuição. Nesse contexto, as justificativas podem ser estruturadas sob diferentes perspectivas: acadêmica, prática, social e, em alguns casos, até mesmo pessoal, conforme o interesse do pesquisador.
A seguir, serão apresentadas as diferentes formas de justificar um projeto de pesquisa.
2.1 Justificativa científico-acadêmica
A justifica científica e acadêmica se refere à contribuição teórica e metodológica que a pesquisa trará para a área de estudo. Ela responde à questão: Como esta pesquisa vai contribuir para o avanço da ciência? O objetivo é destacar como o projeto expande o conhecimento existente, preenche lacunas na literatura, ou mesmo refuta ou corrobora teorias já estabelecidas.
Esse tipo de justificativa deve focar em:
- lacunas na literatura: a pesquisa aborda aspectos que ainda não foram suficientemente explorados, preenchendo uma necessidade de novos estudos.
- corroboração ou refutação de teorias: a pesquisa pode reforçar teorias já existentes ou questioná-las com novas evidências.
- inovação teórica ou metodológica: o trabalho traz uma nova perspectiva teórica ou uma abordagem metodológica inovadora, que pode abrir caminho para futuros estudos.
A justificativa acadêmica é essencial para o progresso de teorias que expliquem fenômenos sociais e comportamentais (Lakatos; Marconi, 2003; Gil, 2002). Desta forma, sendo fundamental mostrar a originalidade e a contribuição para o desenvolvimento teórico da disciplina.
Exemplo para ciências policiais: em uma pesquisa sobre técnicas de negociação em situações de conflito, a justificativa acadêmica poderia destacar a falta de estudos empíricos recentes sobre o impacto dessas técnicas no comportamento de suspeitos em crises policiais, propondo um modelo a ser testado.
2.2 Justificativa prática
No âmbito prático, a justificativa deve focar em como os resultados do estudo podem ter aplicações diretas na resolução de problemas reais ou na melhoria de processos. Esta justificativa responde à questão: Como esta pesquisa pode ser útil no mundo prático? O pesquisador precisa evidenciar como sua investigação pode ser traduzida em benefícios concretos para profissionais, instituições ou políticas públicas.
A pesquisa aplicada tem a missão de transformar o conhecimento teórico em soluções práticas (Severino, 2017; Cervo; Bervian, 2002). É importante ressaltar a relevância do projeto em termos de:
- soluções práticas: o estudo pode propor soluções inovadoras para problemas operacionais, técnicos ou gerenciais;
- impacto em políticas públicas: a pesquisa pode fornecer subsídios para melhorar ou implementar novas políticas que beneficiem a sociedade;
- aperfeiçoamento profissional: os resultados podem ser aplicados diretamente em práticas profissionais, melhorando processos e procedimentos.
A justificativa prática é especialmente importante em áreas como segurança pública e ciências aplicadas, onde a pesquisa visa produzir resultados tangíveis para o cotidiano.
Exemplo para ciências policiais: Um estudo sobre técnicas de negociação em situações de crise pode ser justificado pela necessidade de aprimorar a formação policial para lidar com reféns, minimizando os riscos tanto para os agentes quanto para civis.
2.3 Justificativa social
A justificativa social foca nos benefícios que o estudo pode gerar para a sociedade como um todo ou para grupos específicos. Aqui, a pergunta a ser respondida é: Como esta pesquisa pode melhorar a vida das pessoas ou promover mudanças sociais positivas? Exemplos das principais abordagens:
- redução de desigualdades: o estudo busca diminuir desigualdades sociais, econômicas ou de acesso a direitos.
- promoção de justiça e equidade: a pesquisa propõe mudanças ou inovações que promovem justiça social ou melhoram a qualidade de vida de populações marginalizadas.
- impacto em políticas públicas de inclusão: os resultados podem oferecer informações valiosas para o desenvolvimento de políticas que promovam a inclusão e o bem-estar social.
Aqui, a ênfase está na importância social da pesquisa, ou seja, como ela pode melhorar a qualidade de vida, promover justiça social ou resolver problemas coletivos. A justificativa social ressalta como os resultados do estudo podem beneficiar grupos específicos ou a sociedade em geral.
Minayo (1994) destaca que as ciências sociais têm a responsabilidade de abordar questões relacionadas à desigualdade, violência e exclusão social. No campo da criminologia, isso se reflete em estudos que visam reduzir a criminalidade ou melhorar as políticas públicas de segurança.
Exemplo para ciências policiais: uma pesquisa sobre a eficácia de políticas de inclusão para egressos do sistema penitenciário pode ser justificada pela necessidade de reduzir a reincidência criminal e reintegrar ex-detentos à sociedade.
2.4 Justificativa pessoal
A inclusão de uma justificativa em âmbito pessoal, abordando o interesse do pesquisador na pesquisa, também é uma abordagem válida, especialmente em projetos acadêmicos individuais. Esse tipo de justificativa pode demonstrar a motivação pessoal do pesquisador, o que pode agregar valor ao trabalho ao explicitar o comprometimento e a conexão com o tema. Embora não seja um requisito formal em todas as áreas, essa abordagem pode fortalecer o argumento de relevância quando o pesquisador tem uma vivência, experiência ou interesse específico no assunto estudado.
O pesquisador pode justificar sua escolha de tema com base em seu interesse pessoal, experiências profissionais, ou questões relacionadas à sua trajetória de vida. Esta justificativa reforça a conexão pessoal com o estudo, e pode trazer uma perspectiva única e mais engajada à pesquisa.
Por exemplo, um policial que realiza uma pesquisa sobre estresse ocupacional nas forças de segurança pode justificar o tema baseado em sua própria experiência, buscando compreender e solucionar um problema que vivencia diariamente.
Eco (2015) destaca que é importante que o pesquisador tenha afinidade e interesse pelo tema escolhido, pois isso sustenta a motivação durante o processo de investigação, além de melhorar a qualidade do trabalho final. Eco (2015) enfatiza que o envolvimento pessoal não deve substituir o rigor científico, mas pode ser um fator importante para manter a dedicação ao longo da pesquisa.
3 Tríplice Hélice
A tríplice hélice é um conceito desenvolvido por Etzkowitz e Leydesdorff (2000) que descreve a interação entre universidade, governo e indústria como fundamentais para a inovação e o desenvolvimento tecnológico. Ao incluir a tríplice hélice na justificativa de uma pesquisa, o pesquisador ressalta o papel integrador da sua investigação no avanço das políticas públicas (governo), nas inovações tecnológicas e práticas (indústria), e na geração de conhecimento científico (universidade).
Na segurança pública, a tríplice hélice pode ser aplicada em projetos que busquem o desenvolvimento de novas tecnologias de vigilância, por exemplo, em que há colaboração entre universidades que realizam pesquisas, indústrias que desenvolvem equipamentos e o governo que implementa políticas para aplicação dessas inovações.
Exemplo: A justificativa para um projeto sobre a utilização de drones no policiamento ostensivo pode incluir a tríplice hélice ao abordar a colaboração entre universidades que desenvolvem o software de monitoramento, empresas que fabricam os drones e o governo que define as políticas de uso.
Referências
CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A. Metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Pearson, 2002.
ECO, U. Como se faz uma tese. 23. ed. São Paulo: Perspectiva, 2015.
ETZKOWITZ, H.; LEYDESDORFF, L. The dynamics of innovation: from national systems and “Mode 2” to a Triple Helix of university–industry–government relations. Research Policy, v. 29, n. 2, p. 109-123, 2000.
GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002.
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003.
MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 3. ed. São Paulo: Hucitec, 1994.
SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 24. ed. São Paulo: Cortez, 2017.
