1 Introdução
O programa Drug Abuse Resistance Education (DARE) é uma iniciativa de prevenção de drogas amplamente implementada em escolas, com o objetivo de reduzir o uso de drogas entre adolescentes. No Brasil, o programa recebeu o nome de Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), sendo implementado pelas polícias militares. Apesar de sua popularidade, a eficácia do programa DARE em atingir seu objetivo principal tem sido um assunto de extensa pesquisa e debate.
Vários estudos demonstraram que o programa DARE tem impacto mínimo na redução do uso de drogas entre adolescentes. Os tamanhos de efeito para o comportamento de uso de drogas são geralmente pequenos e não estatisticamente significativos.
Algumas melhorias de curto prazo nas atitudes dos alunos em relação às drogas, habilidades de resistência de colegas e conhecimento geral sobre abuso de substâncias foram observadas imediatamente após o programa DARE. No entanto, esses efeitos tendem a diminuir ao longo do tempo.
Estudos longitudinais indicam que quaisquer efeitos positivos iniciais do programa DARE sobre o comportamento de uso de drogas, atitudes ou autoestima não persistem a longo prazo. Avaliações de acompanhamento até 10 anos após a intervenção não mostram diferenças significativas entre os participantes do DARE e os não participantes.
Quando comparado a outros programas de prevenção de drogas que enfatizam competências sociais e gerais e usam estratégias de ensino interativas, a eficácia do DARE é substancialmente menor.
Alguns estudos sugerem que a eficácia do programa DARE pode variar entre diferentes subgrupos da população-alvo, como aqueles baseados no status metropolitano, mas essas descobertas não são consistentes ou robustas.
2 Eficácia limitada no comportamento de uso de drogas
Vários estudos demonstraram que o programa DARE tem impacto mínimo na redução do uso de drogas entre adolescentes. Os tamanhos de efeito para o comportamento de uso de drogas são geralmente pequenos e não estatisticamente significativos.
2.1 Avaliação de impactos de longo prazo do DARE
O estudo de Ennett et al. (1994) intitulado “Long-Term Evaluation of Drug Abuse Resistance Education” de Susan T. Ennett et al. (1994) teve como objetivo principal avaliar, de maneira longitudinal, a eficácia do programa DARE (Drug Abuse Resistance Education) nas escolas dos Estados Unidos, com foco específico no estado de Illinois. O DARE foi amplamente difundido como uma intervenção preventiva baseada na escola para reduzir o uso de drogas entre adolescentes, sendo implementado em aproximadamente 50% dos distritos escolares americanos à época do estudo.
O estudo visava verificar se o DARE tinha um impacto imediato e duradouro no comportamento de uso de drogas dos estudantes, bem como em variáveis psicológicas e sociais que supostamente mediam esse comportamento, como autoestima, resistência a pressões sociais e atitudes em relação ao uso de substâncias. A hipótese era que o DARE promoveria não apenas uma redução no uso de drogas logo após o término do programa, mas que esses efeitos se sustentariam ao longo de um ou dois anos.
A metodologia adotada foi um desenho de avaliação longitudinal, no qual 36 escolas do norte e centro de Illinois participaram, divididas em 18 pares de escolas. Em cada par, uma escola foi designada para receber o programa DARE, enquanto a outra serviu como controle. A amostra inicial incluiu estudantes da quinta e sexta séries, que foram acompanhados em quatro ondas de coleta de dados: imediatamente antes da implementação do programa (pré-teste), logo após o término (pós-teste imediato) e um e dois anos após a intervenção. O estudo seguiu um modelo de regressão, ajustando para variáveis sociodemográficas, e utilizou a técnica SUDAAN[1] para análise de dados, com o intuito de lidar com a estrutura hierárquica das escolas.
Os resultados indicaram um impacto muito limitado do DARE. Em termos de comportamento de uso de drogas, o programa não mostrou efeitos estatisticamente significativos na redução do uso de álcool, cigarro ou de uso abusivo de bebidas alcoólicas. Os estudantes expostos ao DARE foram menos propensos a aumentar o uso de cigarros imediatamente após o programa, mas esse efeito não se sustentou ao longo do tempo. Além disso, os estudantes de áreas rurais apresentaram uma ligeira redução no aumento do consumo de álcool logo após o programa, embora esse efeito também tenha se dissipado em avaliações posteriores.
Quanto às variáveis sociais e psicológicas, o DARE teve um efeito positivo de curto prazo na autoestima dos alunos, mas este não persistiu um ou dois anos depois. O programa não apresentou impacto significativo em outras variáveis, como habilidades de resistência a pares ou atitudes em relação ao uso de drogas. Curiosamente, alguns efeitos positivos foram mais evidentes em alunos de áreas rurais logo após a intervenção, sugerindo que o contexto geográfico pode influenciar a eficácia do DARE.
A ausência de resultados significativos sustentados pelo programa DARE levanta questões sobre sua eficácia como uma ferramenta de prevenção de uso de drogas em adolescentes. Os autores sugerem que fatores como a idade dos estudantes (no fim do ensino fundamental, antes do aumento da exposição ao uso de drogas) e o uso de policiais como instrutores, em vez de professores ou colegas, podem ter limitado o impacto do programa. Além disso, eles apontam que o foco amplo do currículo, que abrange desde informações sobre drogas até construção de autoestima, pode ter diluído os potenciais efeitos do DARE.
O estudo conclui que, embora o DARE seja amplamente apoiado pelas comunidades e presente em muitas escolas, seus benefícios para a prevenção de drogas são limitados e temporários. Os autores recomendam que sejam exploradas modificações no currículo do DARE, ou mesmo outras abordagens preventivas que possam ser mais eficazes para sustentar os efeitos preventivos ao longo do tempo.
2.2 Meta-análise de Tobler e análise do valor da interatividade dos programas
Nancy S. Tobler publicou trabalho intitulado Meta-Analysis of Adolescent Drug Prevention Programs: Results of the 1993, sobre resultado de uma meta-análise realizada sobre programas de prevenção de drogas para adolescentes. A pesquisa, realizada em 1993, analisou a eficácia de programas escolares, comparando programas interativos e não interativos, e identificando os tipos de conteúdos e métodos de entrega utilizados. A meta-análise incluiu 120 programas e aplicou regressões de mínimos quadrados ponderados e não ponderados para avaliar a eficácia de diferentes tipos de programas e as variáveis associadas, como tamanho da amostra, tipo de controle, e características demográficas.
A metodologia utilizada por Tobler (1994) contou com a seleção de programas com base em critérios específicos para garantir a comparabilidade e relevância dos dados:
- Programas baseados em escolas: Voltados para estudantes do ensino fundamental e médio (6º ao 12º ano), sendo o 5º ano incluído apenas se incorporado a um estudo longitudinal.
- Medidas de resultados em uso de drogas: Os programas deveriam reportar resultados em termos de uso de drogas, como tabaco, álcool, maconha ou outras substâncias ilícitas.
- Grupos de controle: Necessidade de grupos de controle ou comparação, com medidas pré e pós-teste.
- Exclusão de populações de alto risco: Programas que visavam a prevenção primária, secundária ou intervenção precoce foram incluídos, mas não aqueles que tratavam usuários abusivos ou compulsivos identificados.
- Inclusão de grupos étnicos variados: A população estudantil deveria refletir a diversidade étnica.
- Localização e período de estudo: Programas realizados nos Estados Unidos ou Canadá e publicados após 1977.
A codificação das variáveis foi uma parte central da metodologia:
- Variáveis de Conteúdo e Processos: foram codificados mais de 250 itens relacionados a componentes do tratamento, características dos participantes e programas, fatores de implementação, metodologia de pesquisa, instrumentos de teste e análise de dados. Cada variável foi cuidadosamente documentada em um manual de 50 páginas.
- Diferentes Tipos de Programas: os programas foram agrupados em categorias interativas e não interativas, com base no conteúdo (conhecimento, habilidades de recusa, habilidades genéricas) e na metodologia de entrega (grupos A a D, com diferentes níveis de interação).
- Independência de Medidas de Resultado: para assegurar independência, medidas de resultado para cada categoria de substância (cigarros, álcool, etc.) foram mantidas separadas e, caso houvesse múltiplos pontos de teste, as médias eram usadas para calcular um efeito geral para o programa.
O critério para classificar um programa como interativo ou não interativo baseou-se no nível de interação entre os participantes e no método de entrega do conteúdo utilizado nos programas de prevenção de drogas. Essa classificação foi fundamentada nas observações das dinâmicas de grupo e nos tipos de atividades desenvolvidas em sala de aula.
Tobler analisou a interatividade dos programas. Para tal, usou um sistema de classificação para distinguir entre programas interativos e não interativos, baseando-se em uma taxonomia revisada de grupos desenvolvida por Toseland e Rivas (1984), que identificou quatro tipos principais de grupos (A, B, C e D), com níveis crescentes de interação:
| Gruupo | Descrição |
| Grupo A – Não Interativo | Programas que utilizavam apresentações didáticas, onde a participação dos alunos era passiva e centrada na absorção de conhecimento. |
| Grupo B – Pouco Interativo | Envolvia algumas discussões em grupo e atividades individuais orientadas, mas ainda com foco predominantemente didático, com pouca interação entre os alunos. |
| Grupo C – Moderadamente Interativo | Promovia uma participação ativa com exercícios estruturados, como simulações e dramatizações, que estimulavam habilidades interpessoais e a interação entre os alunos. |
| Grupo D – Altamente Interativo | Centrava-se no desenvolvimento pessoal e interpessoal dos participantes, com discussões em grupo e dinâmicas abertas, incentivando a autoexpressão e a colaboração entre os membros. |
A classificação final entre interativo vs. não interativo foi a seguinte:
- Programas Interativos: Classificados como tais se incorporassem técnicas de grupo que promoviam uma maior interação entre os estudantes, como os Grupos C e D. Estes programas envolviam práticas como dramatizações, simulações de recusa de drogas, atividades em grupo que estimulavam a comunicação e desenvolvimento de habilidades sociais, e eram estruturados para que os alunos colaborassem ativamente.
- Programas Não Interativos: Classificados como tal se usassem métodos predominantemente didáticos, limitando a participação dos alunos a um papel passivo de recepção de informações, sem estimular a interação com outros membros da turma (Grupos A e B).
Foram incluídos seis covariantes principais para ajustar os resultados e isolar o efeito dos programas:
- Tamanho da amostra
- Tipo de grupo de controle
- Design experimental (atribuindo os programas conforme aceitabilidade da taxa de desistência)
- População especial (escolas com maior percentual de minorias)
- Droga alvo (especificamente tabaco, álcool ou drogas em geral)
- Tipo de líder (professores, pares, profissionais de saúde mental, outros)
A análise do intervalo de teste pós-treinamento também foi feita. Tobler analisou os resultados dos programas em diferentes intervalos de tempo (1 a 12 meses, 13 a 24 meses, etc.) para observar a durabilidade dos efeitos. Quando os intervalos não tinham todos os programas representados, os efeitos foram agrupados para análises estatísticas.
Os resultados gerais de eficácia foram:
- Programas Interativos: De um total de 70 programas classificados como interativos, esses se mostraram significativamente mais eficazes em reduzir o uso de drogas entre adolescentes.
- O tamanho de efeito médio não ponderado (UNES) para os programas interativos foi de 0,247, e o tamanho de efeito médio ponderado (WES) foi de 0,164. Ambos os valores indicam uma mudança positiva no comportamento em relação ao uso de drogas.
- Esses programas foram eficazes para uma variedade de substâncias, incluindo tabaco, álcool, maconha e outras drogas ilícitas, com consistência nos resultados.
- Programas Não Interativos: Entre os 44 programas classificados como não interativos, os resultados indicaram que esses foram essencialmente ineficazes na alteração dos comportamentos relacionados ao uso de drogas.
- O tamanho de efeito médio não ponderado (UNES) para os programas não interativos foi de apenas 0,058, e o tamanho de efeito médio ponderado (WES) foi de 0,075, ambos valores baixos que sugerem pouco ou nenhum impacto no uso de drogas pelos adolescentes.
Para garantir que os resultados fossem robustos, Tobler também analisou um subconjunto de 56 programas considerados de alta qualidade, caracterizados por rigor metodológico, como design experimental e controle rigoroso de variáveis.
- Interativos de Alta Qualidade: Dentro desse subconjunto, 38 programas interativos apresentaram resultados ainda mais positivos, com um UNES de 0,317 e um WES de 0,214.
- Não Interativos de Alta Qualidade: Entre os 18 programas não interativos desse subconjunto, o impacto foi praticamente nulo, com um UNES de 0,017 e um WES de 0,043.
Esses resultados indicam que a interatividade é um fator crítico para a eficácia dos programas de prevenção de drogas. A maioria dos programas interativos foi considerada eficaz, enquanto a maioria dos programas não interativos foi considerada ineficaz em termos de impacto no uso de drogas entre adolescentes.
2.3 Meta-análise de Enett et al. (1994)
O artigo “How Effective Is Drug Abuse Resistance Education? A Meta-Analysis of Project DARE Outcome Evaluations” de Susan T. Ennett et al. (1994) analisa a eficácia do programa DARE (Drug Abuse Resistance Education) em prevenir o uso de drogas entre estudantes. Através de uma meta-análise, os autores avaliaram os resultados de diversos estudos sobre o programa, que é conduzido por oficiais de polícia em escolas e tem como objetivo ensinar aos jovens habilidades para resistir à pressão social de usar drogas.
A metodologia do trabalho de meta-análise considerou apenas estudos com rigor metodológico adequado, como uso de grupo controle e medidas quantitativas confiáveis. Ao todo, 8 estudos de diferentes estados foram selecionados.
A eficácia do DARE foi medida em seis categorias: conhecimento sobre drogas, atitudes em relação ao uso de drogas, habilidades sociais, autoestima, atitudes em relação à polícia e uso de drogas.
Os resultados do trabalho foram os seguintes:
- Conhecimento sobre drogas: O maior impacto do DARE foi no aumento do conhecimento sobre drogas, com um efeito médio significativo.
- Habilidades Sociais e Atitudes: Houve também efeitos significativos, embora menores, nas habilidades sociais e nas atitudes em relação ao uso de drogas e à polícia.
- Uso de Drogas: A redução no uso de drogas (álcool, tabaco e maconha) foi pequena e, exceto para o uso de tabaco, não foi estatisticamente significativa. Esse resultado sugere que o DARE tem um impacto limitado no comportamento de uso de drogas.
- Comparação com Outros Programas: Em comparação com programas interativos de prevenção de uso de drogas, o DARE apresentou efeitos menores. Programas que utilizam métodos interativos, como desenvolvimento de habilidades sociais através de interações entre pares, mostraram maior eficácia na prevenção do uso de drogas.
A meta-análise concluiu que, apesar da popularidade e do alto custo do programa DARE, seu impacto na prevenção do uso de drogas é limitado. Os autores sugerem que o programa poderia se beneficiar de uma abordagem mais interativa e focada em competências sociais.
2.4 A eficácia da Educação sobre Resistência ao Abuso de Drogas (projeto DARE): resultados de acompanhamento de 5 anos.
Clayton e colaboradores (1996) no trabalho The Effectiveness of Drug Abuse Resistance Education (Project DARE): 5-Year Follow-Up Results utilizaram um desenho longitudinal e experimental para avaliar a eficácia do programa DARE em prevenir o uso de drogas entre estudantes ao longo de cinco anos.
O estudo foi realizado em Lexington, Kentucky, envolvendo 31 escolas de ensino fundamental. Destas, 23 escolas foram designadas para participar do programa DARE, enquanto 8 serviram como escolas de comparação (grupo de controle). A escolha das escolas foi aleatória, mas, devido a limitações no número de policiais treinados para ministrar o programa, o desenho ideal com um número igual de escolas para cada grupo não foi possível. Nas escolas de comparação, os alunos receberam uma unidade de educação sobre drogas dentro do currículo de saúde, mas o conteúdo variava e não seguia o protocolo padronizado do DARE.
O currículo do DARE, desenvolvido em 1983, é composto por 17 sessões semanais de uma hora cada, ministradas por policiais uniformizados. Os conteúdos incluem habilidades de resistência à pressão dos pares, conscientização sobre a influência da mídia, habilidades de tomada de decisão, autoestima, e responsabilidade pela própria segurança. Em Lexington, a lição sobre envolvimento com gangues foi retirada, pois não era considerada relevante no contexto local.
No início do estudo, 2.071 alunos foram avaliados, representando 93% dos estudantes de 6ª série no sistema escolar de Lexington. Foi adotado um consentimento passivo, no qual apenas 1% dos pais optaram por não permitir a participação dos filhos. A amostra inicial era composta por 51% de meninos, 75% de brancos, 22% de afro-americanos e pouco mais de 2% de outras etnias.
Para a coleta de dados, todos os alunos foram submetidos a um questionário de 154 itens antes da intervenção (no 6º ano) e logo após o término do programa (aproximadamente quatro meses depois). Os mesmos alunos foram avaliados anualmente, até o 10º ano. Para garantir privacidade, os alunos removeram a página de identificação de seus questionários, e esta foi armazenada separadamente.
O estudo avaliou o uso de três substâncias – cigarro, álcool e maconha – por meio de autorrelato sobre a frequência de uso no último ano. Em termos de atitudes sobre drogas, foram criadas medidas específicas para avaliar atitudes negativas em relação ao cigarro, álcool e maconha, além de uma escala geral sobre atitudes contra drogas. Em termos de resistência à pressão dos pares, uma escala de nove itens mediu a capacidade dos alunos de resistir à pressão dos colegas para usar drogas. Além disso, medidas específicas avaliaram a percepção dos alunos sobre a quantidade de colegas que usavam cada uma das três substâncias.
Para análise dos dados em relação às trajetórias de mudança ao longo do tempo, foram utilizados modelos de regressão que consideravam tanto variabilidade individual quanto variabilidade entre escolas. A análise também considerou os efeitos contextuais das escolas e variáveis demográficas para examinar se certas características influenciavam o impacto do DARE. A perda de participantes (cerca de 45% ao longo dos cinco anos) foi avaliada, especialmente nas transições escolares (do ensino fundamental para o ensino médio). Foi investigado se o grupo de tratamento ou de controle teve maior índice de evasão, e se havia diferenças de uso de drogas entre aqueles que abandonaram o estudo e os que permaneceram. Concluiu-se que a evasão não influenciou significativamente a validade interna do estudo, embora limitasse a generalização dos resultados para estudantes mais velhos.
Os resultados não indicaram diferenças significativas no uso de drogas entre os grupos DARE e de comparação ao longo dos cinco anos, embora efeitos temporários sobre atitudes e percepção de resistência tenham sido observados no curto prazo (efeitos significativos foram observados durante a 7ª série para medidas de atitudes gerais e específicas dos alunos em relação às drogas, a capacidade de resistir à pressão dos colegas e o nível estimado de uso de drogas pelos colegas).
Os autores sugerem que o impacto do DARE sobre comportamento é limitado e que programas de prevenção podem precisar de reforços periódicos para manter efeitos positivos.
2.5 Percepção dos policiais em sala de aula
Rosembaum et al. (1994) no artigo Cops in the Classroom: a longitudinal evaluation of Drug Abuse Resistance Education (DARE) examinaram a influência e as percepções da presença policial no ambiente escolar por meio de um experimento longitudinal randomizado foi conduzido com 1.584 alunos para estimar os efeitos do DARE em suas atitudes, crenças e comportamentos de uso de drogas no ano seguinte à exposição ao programa. O DARE não teve efeitos principais estatisticamente significativos nos comportamentos de uso de drogas e teve poucos efeitos nas atitudes ou crenças sobre drogas. No entanto, interações significativas entre o DARE e outros fatores (por exemplo, status metropolitano) sugerem que alguns efeitos do programa variaram entre subgrupos da população-alvo. Esta pesquisa fornece um teste do modelo abrangente de prevenção escolar e ajuda a identificar possíveis efeitos diferenciais desta iniciativa de educação sobre drogas.
A avaliação do DARE foi estruturada como um experimento de campo randomizado com um pré-teste e múltiplos pós-testes. Foram selecionados 18 pares de escolas representando áreas urbanas, suburbanas e rurais no norte de Illinois, pareados conforme tipo, composição étnica, número de alunos com inglês limitado e percentual de alunos de baixa renda. Doze pares foram aleatoriamente designados, sendo uma escola de cada par para o DARE e a outra como controle. Nos seis pares rurais, devido às grandes distâncias, a atribuição não foi aleatória, escolhendo-se escolas próximas com características semelhantes.
O questionário inicial foi aplicado em fevereiro de 1991, antes da implementação do DARE, nas salas de aula. Os alunos receberam instruções para escrever seus nomes e endereços na folha de rosto, e os questionários foram pré-codificados com números de identificação para facilitar a correspondência entre pré-teste e pós-teste. A equipe garantiu confidencialidade, explicando que as respostas não seriam divulgadas a professores, pais ou policiais. Os alunos destacaram a folha de rosto, que foi selada em um envelope pela equipe, assegurando visualmente a privacidade. Apenas o número de identificação pré-codificado permaneceu no questionário.
A equipe de pesquisa passou por uma sessão de treinamento para assegurar a consistência dos procedimentos de coleta de dados ao longo do tempo e entre os pesquisadores. O questionário, autoadministrado, levou cerca de 35 minutos para ser completado. A equipe ficou à frente da sala para evitar influenciar respostas a perguntas sensíveis. Questionários para alunos ausentes foram entregues aos orientadores, com a instrução de aplicá-los nos dias seguintes.
O impacto do DARE foi avaliado usando múltiplas medidas de resultados. Sempre que possível, a confiabilidade e validade da medição foram aprimoradas usando escalas e índices padronizados de pesquisas anteriores. Os seguintes construtos foram medidos:
- Uso de substâncias. Os alunos responderam a dois conjuntos de perguntas sobre o uso de várias drogas, incluindo tabaco, álcool e outras substâncias. O formato para essas perguntas foi originalmente criado por Moskowitz, Schaeffer, Condon, Schaps e Malvin (1981) para sua Pesquisa sobre Drogas e Álcool. Os alunos indicaram se haviam usado essas substâncias em “toda a sua vida” e “durante o último mês (30 dias)”. Medidas de resumo foram construídas combinando respostas a itens sobre cerveja, vinho, refrigerantes de vinho e bebidas destiladas. Essas medidas foram usadas para calcular três variáveis dependentes que medem mudanças no status de uso entre ondas para uso de álcool e cigarro. Os três tipos de mudanças no uso de drogas são (1) iniciação, (2) aumento no uso e (3) cessação.
- Desempenho escolar. As medidas de desempenho e comportamento escolar incluíram notas autorrelatadas, número de vezes que os alunos relataram estar com problemas na escola e o número de vezes que eles relataram faltar às aulas. As notas autorrelatadas variaram de 1 (menos que Ds) a 8 (principalmente As). Análises anteriores desses dados indicaram que a medida autorrelatada é aceitavelmente válida (ou seja, o coeficiente de correlação entre notas autorrelatadas e notas oficiais abstraídas de registros escolares foi de 0,60).
- Atitudes gerais em relação às drogas. Os alunos indicaram seu nível de concordância com cinco declarações sobre o uso de drogas, que Moskowitz e associados (1981) desenvolveram originalmente para a Pesquisa sobre Drogas e Álcool.
- Atitudes em relação ao uso de drogas específicas. Essas questões, também extraídas da Pesquisa sobre Drogas e Álcool, avaliam atitudes em relação a tipos específicos de álcool que os jovens têm mais probabilidade de usar. Assim como no índice de uso de álcool por 30 dias, as respostas a perguntas sobre suas atitudes em relação à cerveja, aos coolers de vinho e ao vinho foram somadas.
- Benefícios e custos percebidos do uso de drogas. Os alunos foram questionados sobre os benefícios percebidos, bem como os custos percebidos de fumar cigarros e beber cerveja e refrigerantes de vinho (Moskowitz et al. 1981). Ao adicionar as respostas dos alunos, quatro índices foram criados para avaliar os custos e benefícios percebidos do uso de cigarros e álcool.
- Atitudes percebidas dos colegas em relação ao uso de substâncias. Respondendo a perguntas derivadas da Pesquisa sobre Drogas e Álcool (Moskowitz et al. 1981), os alunos relataram suas percepções sobre o que a maioria dos alunos em sua classe pensava sobre o uso de uma variedade de substâncias. As crenças dos alunos sobre o uso de cigarros, álcool (ou seja, cerveja, vinho e coolers de vinho) e maconha por seus colegas foram medidas com perguntas adaptadas da Pesquisa sobre Estudantes da Universidade do Sul da Califórnia (Graham et al. 1984). As respostas foram então somadas para criar um índice de atitudes percebidas dos colegas de três itens.
- Percepções das influências da mídia sobre o fumo e o consumo de cerveja. Duas medidas foram empregadas para avaliar se os alunos reconheciam as tentativas da mídia comercial de fazer o consumo de cerveja e o fumo de cigarro parecerem atraentes (Bauman, 1985). Os alunos relataram o que achavam que a mídia fazia o consumo de cerveja e o fumo de cigarro “parecerem” – uma coisa “boa” de se fazer, uma coisa “ruim” coisa a fazer, ambos ou nenhum.
- Este construto foi medido pela combinação de sete itens extraídos da escala de Autoestima de Rosenberg (1965), que foi desenvolvida para uso com adolescentes. As perguntas foram ligeiramente modificadas para tornar a linguagem mais apropriada para alunos contemporâneos do sexto e sétimo ano.
- Os alunos responderam a uma versão abreviada de quatro itens da Children’s Assertive Behavior Scale (Michelson; Wood 1982), que foi desenvolvida para uso com crianças da quarta à sexta séries. As opções de resposta variam com cada questão e refletem níveis variados de assertividade.
- Atitudes em relação à polícia. Os alunos classificaram nove itens extraídos da escala Attitudes Toward Police desenvolvida por Faine e Bohlander (1989).
- Habilidades de resistência de colegas. Os alunos responderam a quatro situações hipotéticas nas quais seu melhor amigo ou um conhecido lhes ofereceu cigarros ou álcool (Hansen, 1990). Eles então classificaram sua capacidade de “dizer não” em uma escala de 4 pontos variando de “nada certo” a “muito certo”.
A avaliação do impacto do DARE focou no uso de álcool e cigarros, pois o consumo de outras substâncias era muito baixo (1-3% de uso ao longo da vida) para análise significativa. Foram considerados três indicadores: iniciação, aumento do uso e abandono, comparando-se dados do pré-teste e do acompanhamento. Alunos que começaram a usar entre o pré-teste e o acompanhamento foram considerados iniciantes; os que passaram a relatar uso recente foram classificados como aumento; e aqueles que pararam de usar foram considerados cessadores. A iniciação foi codificada como 1 e abstinência contínua como 0; aumento do uso como 1 e não uso contínuo como 0; cessação como 1 e uso contínuo como 0. As amostras de aumento e cessação foram mutuamente exclusivas, e a amostra de iniciação foi um subconjunto da de aumento.
As análises iniciais examinaram o efeito do DARE nas seis variáveis dependentes (iniciação, aumento e cessação de uso de álcool e cigarros), controlando fatores como raça, sexo, ano escolar, estrutura familiar e status metropolitano. Usou-se regressão logística múltipla, onde odds ratios abaixo de 1 indicavam um efeito positivo para iniciação e uso contínuo, e acima de 1 para cessação. Os resultados não mostraram efeitos significativos do DARE nesses comportamentos, com odds ratios próximos de 1. Contudo, cinco dos seis efeitos favoreciam o DARE, exceto o aumento do uso de álcool.
A análise mostrou que o DARE teve um efeito significativo apenas na percepção dos alunos sobre a mídia e o consumo de cerveja, tornando-o mais desejável para os participantes. Não houve impacto significativo nas notas, problemas escolares ou faltas. Em subgrupos, o DARE teve efeitos variados: as mulheres apresentaram o dobro de chances de cessar o uso de álcool em comparação às não expostas ao programa, enquanto, para os homens, o efeito foi oposto. O DARE foi mais eficaz para alunos urbanos ao aumentar a conscientização sobre as influências da mídia em álcool e cigarro, e teve um impacto mais positivo entre hispânicos na percepção dos malefícios do fumo.
Os resultados deste estudo apontam tanto para direções futuras de pesquisa quanto para implicações no aprimoramento do programa DARE. Em primeiro lugar, o estudo oferece suporte empírico limitado para o modelo abrangente de educação sobre drogas adotado pelo DARE. Embora seja um programa amplamente implementado nas escolas, evidências de estudos e revisões anteriores sugerem que métodos focados no desenvolvimento de habilidades sociais apresentam maior potencial para prevenir o uso de drogas entre adolescentes. O currículo DARE inclui o ensino de habilidades gerais e específicas para que os jovens resistam a influências para o uso de drogas, mas a eficácia dessa estratégia dentro de um programa abrangente como o DARE ainda necessita de comprovação mais robusta.
Em segundo lugar, os achados deste estudo servem como um alerta para pesquisadores e defensores do programa, lembrando-os de que, apesar de sua natureza pró-social e do apoio popular, um programa como o DARE não garante resultados positivos consistentes. O objetivo do DARE de prevenir o uso de álcool e drogas é louvável, e seu desenvolvimento foi impulsionado por boas intenções e grande investimento de recursos. No entanto, este estudo destaca que programas de prevenção de drogas, mesmo amplamente aceitos, podem não alcançar os impactos esperados de forma uniforme, especialmente quando se consideram variações nos efeitos entre diferentes subgrupos da população-alvo.
Em terceiro lugar, os resultados desta avaliação, em conjunto com outras pesquisas sobre o DARE e programas similares, sugerem fortemente que o currículo do DARE poderia se beneficiar de uma revisão. Embora o currículo aborde fatores relevantes para a prevenção do uso de drogas, como influência de pares, habilidades de resistência e controle pessoal, uma parte significativa do tempo é dedicada a tópicos que não estão diretamente relacionados à prevenção de substâncias. Embora alguns desses temas, como a construção de autoestima, possam ser objetivos educacionais importantes por si só, os autores argumentam que o DARE seria mais eficaz se dedicasse mais atenção a fatores com comprovada relevância para a prevenção do uso de drogas.
Por exemplo, o programa poderia enfocar a correção das percepções muitas vezes imprecisas dos alunos sobre a prevalência do uso de drogas entre seus pares. Pesquisas anteriores sugerem que uma abordagem normativa, que visa ajustar essas percepções, pode ser uma ferramenta preventiva eficaz. Estudos de Hansen et al. (1988) e Moskowitz (1989) indicam que a correção dessas percepções pode reduzir a pressão social que leva ao uso de substâncias.
De modo geral, os autores sugerem que os programas de prevenção e as políticas escolares deveriam investir mais recursos em fatores protetivos bem fundamentados na teoria e na pesquisa atual sobre delinquência e uso de drogas (como recomendado por Hawkins, Catalano e Miller, 1992). Concentrar-se em um conjunto seleto de fatores protetivos conhecidos pode resultar em benefícios mais significativos do que abordar uma ampla gama de tópicos de forma superficial, exceto quando a teoria apoia o tratamento de múltiplos fatores interativos.
Os autores concluem que, neste estágio, há necessidade de mais pesquisas sobre os processos envolvidos na entrega de programas de educação sobre drogas nas escolas. Além das mensagens que estão sendo comunicadas, pouco se sabe sobre o impacto das diferenças nas características dos professores, estilo de ensino, características da população estudantil ou ambiente educacional (Rosembaum et al., 1994).
2.7 Estudo quase-experimental de análise do DARE
O conduzido por Michele Alicia Harmon em 1993 – Reducing the risk of drug involvement among early adolescents: an evaluation of Drug Abuse Resistance Education (DARE) analisa a eficácia do programa DARE (Drug Abuse Resistance Education) entre alunos da quinta série no condado de Charleston, Carolina do Sul. A pesquisa comparou 341 alunos que participaram do programa com 367 que não participaram em um total de 11 escolas, em um desenho quase-experimental, com o objetivo de avaliar diferenças em variáveis como uso de álcool, crença em normas pró-sociais, associação com colegas que usam drogas e atitudes contra o uso de substâncias.
Questionários foram aplicados antes e depois da intervenção, com um intervalo de aproximadamente 20 semanas. Para garantir a confidencialidade, os alunos receberam um número de identificação para parear os questionários de pré-teste e pós-teste, evitando o uso de nomes. Foi utilizado o questionário “You and Your School” de Gottfredson (1989), contendo 10 escalas que medem crença em normas pró-sociais, integração social, comprometimento escolar, comportamento rebelde, influência de colegas no uso de drogas, atitudes contra o uso de substâncias, apego à escola, autoestima, assertividade e influência positiva dos colegas. Adicionalmente, questões individuais avaliaram atitudes em relação à polícia, estratégias de enfrentamento e o uso de drogas no último ano e no último mês.
Harmon empregou análise de variância (ANOVA) para avaliar as diferenças entre os grupos no momento do pré-teste, controlando as variáveis de base. Para o pós-teste, foi utilizada a análise de covariância (ANCOVA), considerando as diferenças pré-existentes e as variáveis dependentes medidas previamente.
Os resultados indicaram como diferenças pré-existentes:
- No pré-teste, foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos DARE e controle em duas variáveis demográficas: o grupo DARE tinha mais estudantes do sexo feminino e uma maior proporção de alunos brancos.
- No que diz respeito aos resultados, antes da intervenção, o grupo DARE relatou uma taxa mais alta de uso de cigarros e menores níveis de apego à escola e crença em normas pró-sociais.
Já em relação às diferenças pós-intervenção:
- Impacto Positivo: Comparando os grupos após a intervenção, observou-se que os alunos do DARE demonstraram:
- Maior crença em normas pró-sociais: Alunos do DARE mostraram-se mais comprometidos com normas de comportamento socialmente aceitáveis.
- Menor associação com colegas que usam drogas: Os participantes do DARE relataram menor proximidade com pares que fazem uso de drogas.
- Maior associação com colegas pró-sociais: A frequência de interações com colegas que promovem comportamentos positivos foi mais alta entre os alunos do DARE.
- Atitudes mais fortes contra o uso de substâncias: Os participantes apresentaram uma rejeição mais pronunciada ao uso de drogas.
- Maior assertividade: A habilidade para resistir à pressão social para o uso de drogas foi mais evidente entre os alunos do programa.
- Menor consumo de álcool no último ano: Os alunos DARE relataram uma redução no uso de álcool em comparação com o grupo controle.
- Sem Impacto Significativo. Não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos em várias variáveis, incluindo:
- Uso de cigarros, tabaco ou maconha no último ano e uso de qualquer droga no último mês.
- Atitudes em relação à polícia, estratégias de enfrentamento, integração social, comprometimento e apego à escola, comportamento rebelde e autoestima.
Harmon (1993) destaca que as variáveis sem impacto, como integração social e comportamento rebelde, não são objetivos explícitos do DARE, o que poderia explicar a ausência de diferença entre os grupos.
A consistência na melhoria das atitudes contra o uso de drogas, presente em estudos anteriores, é reforçada neste estudo, sugerindo que o DARE pode ser eficaz na mudança de atitudes em relação ao uso de substâncias. No entanto, a ausência de efeito em aspectos como autoestima e resistência à pressão de pares levanta dúvidas sobre a amplitude de sua eficácia.
Como limitações da pesquisa destaca-se a ausência de randomização limita a generalização dos resultados, pois as diferenças pré-existentes entre os grupos podem ter influenciado os resultados. Harmon (1993) adverte que os efeitos significativos encontrados podem estar inflacionados devido ao grande número de comparações realizadas sem ajustes apropriados. Outra limitação refere-se à dependência de questionários de auto-relato. Questões de viés de resposta e honestidade nas respostas dos alunos podem influenciar os resultados, especialmente em temas sensíveis como uso de substâncias.
Em resumo, o estudo sugere que o DARE pode ser eficaz em promover crenças pró-sociais, atitudes contra o uso de substâncias e redução do consumo de álcool, mas não afeta outras variáveis como autoestima e uso de drogas no curto prazo. Harmon recomenda avaliações contínuas com melhorias metodológicas para esclarecer a eficácia do DARE a longo prazo.
2.8 Análise dos efeitos do DARE 10 anos depois
O artigo “Project DARE: No Effects at 10-Year Follow-Up” de Donald R. Lynam e colaboradores, publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology em 1999, apresenta uma análise de longo prazo sobre a eficácia do programa DARE (Drug Abuse Resistance Education). O estudo examinou indivíduos que receberam o programa DARE na sexta série e os comparou, após dez anos, com um grupo que participou de um currículo padrão de educação antidrogas.
A pesquisa iniciou com alunos da sexta série (aproximadamente 11-12 anos) de uma área metropolitana de classe média nos EUA, em 1987-1988. A amostra inicial incluía 1.429 estudantes, dos quais 1.002 completaram o questionário de seguimento entre 19 e 21 anos. Dos participantes finais, 75% eram brancos, 20% eram afro-americanos, e cerca de 76% tinham participado do programa DARE.
O grupo de comparação contou com escolas que não participaram do DARE, as quais receberam um currículo padrão de educação antidrogas, administrado por professores de saúde, com duração menor e conteúdo variado, muitas vezes incluindo discussões sobre efeitos das drogas e vídeos com “táticas de choque”.
A coleta de dados foi realizada por meio de questionados, nos quais os participantes foram perguntados sobre o uso de álcool, tabaco, maconha e outras drogas em três momentos: uso ao longo da vida, no ano anterior e no mês anterior ao questionário. Foram medidas as expectativas dos participantes sobre as consequências positivas e negativas do uso de drogas, além de habilidades de resistência à pressão dos pares e autoestima (Escala de Autoestima de Rosenberg).
Utilizaram-se Modelos Lineares Hierárquicos (HLM) para analisar as diferenças entre os grupos, uma vez que a randomização foi feita por escolas e não por indivíduos. As análises controlaram fatores pré-existentes antes do DARE, como uso inicial de drogas e expectativas.
Os resultados do trabalho revelaram sobre o uso de substâncias (cigarros, álcool e maconha) que os níveis de uso de cigarros, álcool e maconha estavam relacionados aos níveis anteriores ao DARE, mas o status de participação no DARE não apresentou efeito significativo no uso dessas substâncias aos 20 anos.
Quanto às expectativas sobre drogas, não foram encontradas relações entre a participação no DARE e as expectativas positivas ou negativas sobre o uso de drogas aos 20 anos. As expectativas que os participantes tinham na sexta série persistiram, independentemente da intervenção.
Em relação à variedade de drogas ilícitas, o número de drogas ilícitas usadas (exceto maconha) no ano anterior também não mostrou diferença significativa entre os grupos DARE e controle.
Por sua vez, a resistência à pressão dos pares e autoestima dos participantes não foram positivamente influenciadas pela participação no DARE. De fato, a análise mostrou que o DARE estava relacionado a uma autoestima ligeiramente mais baixa aos 20 anos, embora os autores tenham destacado que esse resultado pode ter ocorrido por acaso.
Em síntese, os resultados indicaram uma ausência de efeitos duradouros do programa DARE na prevenção do uso de substâncias. Os autores sugerem que o DARE não conseguiu alcançar seus objetivos, mesmo com uma intervenção extensa e o uso de policiais como instrutores, que poderiam agregar legitimidade à mensagem antidrogas.
Além disso, o estudo sugere que a popularidade do DARE pode derivar mais de sua aceitação social do que de sua eficácia comprovada, sendo percebido como uma medida “segura” e bem-vista por pais e escolas, embora sem evidências científicas robustas para apoiar suas premissas.
3 Síntese dos trabalhos
A seguir, apresenta-se uma síntese dos trabalhos abordados nesta revisão narrativa de trabalhos avaliativos do programa DARE:
| Estudo | Autores e Ano | Objetivo | Método | Principais Resultados |
| Long-Term Evaluation of Drug Abuse Resistance Education | Ennett et al. (1994) | Avaliar a eficácia do DARE a longo prazo | Estudo longitudinal com grupos controle e intervenção | Impacto mínimo do DARE na redução do uso de drogas; efeitos positivos de curto prazo na autoestima, mas não persistem. |
| Meta-Analysis of Adolescent Drug Prevention Programs | Tobler (1994) | Comparar eficácia de programas interativos e não interativos | Meta-análise de 120 programas | Programas interativos mostraram-se mais eficazes que os não interativos para redução do uso de drogas entre adolescentes. |
| Project DARE: No Effects at 10-Year Follow-Up | Lynam et al. (1999) | Avaliar os efeitos do DARE após 10 anos | Estudo longitudinal com comparação entre grupos | Sem diferenças significativas no uso de drogas entre participantes do DARE e grupo controle; impacto limitado no comportamento a longo prazo. |
| The Effectiveness of Drug Abuse Resistance Education: 5-Year Follow-Up | Clayton et al. (1996) | Avaliar a eficácia do DARE ao longo de cinco anos | Estudo longitudinal com escolas controle | Efeitos de curto prazo em atitudes e resistência, mas sem impacto significativo no uso de substâncias a longo prazo. |
| Cops in the Classroom: a longitudinal evaluation of DARE | Rosembaum et al. (1994) | Examinar efeitos do DARE em atitudes, crenças e comportamento | Experimento longitudinal randomizado | Impacto limitado em comportamentos e atitudes em relação ao uso de drogas; algumas variações por subgrupos. |
| Reducing the risk of drug involvement among early adolescents: an evaluation of DARE | Harmon (1993) | Avaliar a eficácia do DARE em crianças de quinta série | Quase-experimental com análise de variância | Melhorias em normas pró-sociais e atitudes contra uso de drogas; sem impacto significativo no uso de substâncias ou autoestima. |
| How Effective Is Drug Abuse Resistance Education? A Meta-Analysis of Project DARE Outcome Evaluations | Ennett et al. (1994) | Avaliar eficácia geral do DARE em diversos estudos | Meta-análise de estudos sobre o DARE | Impacto limitado em uso de drogas, apesar de aumento no conhecimento sobre drogas e habilidades sociais; efeitos menores comparados a programas interativos. |
Fonte: Elaborado pelo autor.
4 Conclusão
O programa DARE embora o programa tenha se consolidado como uma abordagem amplamente adotada para a prevenção ao uso de drogas em escolas, a sua eficácia demonstrou ser limitada em promover mudanças de longo prazo nos comportamentos e atitudes de adolescentes em relação ao consumo de substâncias.
Evidências apresentadas ao longo do estudo indicam que, apesar de algumas melhorias temporárias nas habilidades de resistência e no conhecimento sobre drogas, esses efeitos não se mantêm com o tempo. Estudos longitudinais e meta-análises reforçam que outros programas, especialmente aqueles que empregam técnicas interativas e focadas em competências sociais, apresentam resultados mais consistentes e duradouros.
Dessa forma, a popularidade do DARE parece derivar mais de seu apelo social e da aceitação entre pais, escolas e comunidades, do que de uma comprovada eficácia na prevenção do uso de drogas. A partir disso, sugere-se uma revisão das abordagens pedagógicas e dos conteúdos abordados no DARE, visando incluir estratégias que favoreçam o engajamento ativo dos alunos e que possam, de fato, impactar positivamente suas escolhas a longo prazo. Além disso, programas de prevenção ao uso de drogas devem considerar intervenções baseadas em evidências científicas e adaptadas às especificidades socioculturais dos adolescentes, ampliando assim as chances de uma prevenção mais eficaz e duradoura.
REFERÊNCIAS
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TOSELAND, R.; RIVAS, R. Introduction to Group Work Practice.New York: MacMillan, Inc., 1984.
[1] A técnica SUDAAN (Survey Data Analysis) é um software estatístico desenvolvido para analisar dados provenientes de amostras complexas, como aquelas com estrutura hierárquica ou amostragem por conglomerados, comumente utilizadas em pesquisas de saúde, sociais e educacionais. No estudo de Ennett et al. (1994), o SUDAAN foi utilizado para ajustar as análises, levando em consideração a estrutura de agrupamento dos dados, onde os estudantes estavam organizados em diferentes escolas, e os efeitos do programa DARE foram avaliados em comparação com grupos de controle.
