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1 INTRODUÇÃO 

A confusão conceitual acerca do termo “estratégico” tem sido uma barreira significativa tanto para a pesquisa quanto para a prática em gestão. Esse termo, amplamente utilizado, frequentemente carece de definição consistente, o que resulta em ambiguidades que comprometem a acumulação de conhecimento sistemático e o desenvolvimento de modelos aplicáveis.

Hickson (1987) destaca que mesmo estudiosos discordam sobre o que constitui uma decisão estratégica, o que prejudica a comparabilidade de estudos e enfraquece a utilidade do termo. Assim, compreender as divergências existentes é o ponto de partida para um estudo mais aprofundado sobre as decisões estratégicas.

Este texto busca explorar essas nuances, estabelecendo uma base para distinguir estratégia, táticas e decisões operacionais.

2 ESTRATÉGIA, IMPORTÂNCIA E HIERARQUIA

A definição de “estratégico” frequentemente está associada à noção de importância, o que, embora intuitivo, não é suficiente para delinear o conceito de forma precisa. Mintzbert, Raisinghani e Theoret (1976) argumentam que “estratégico simplesmente significa importante”, referindo-se ao impacto de decisões sobre recursos, ações e precedentes estabelecidos. No entanto, essa definição não explica de maneira clara o que torna algo importante no contexto estratégico, gerando interpretações subjetivas e práticas inadequadas. Elfenbein e Sterling (2018) destacam que nem todas as decisões importantes podem ser consideradas estratégicas, especialmente quando carecem de uma conexão com os objetivos de longo prazo da organização.

Uma das principais fontes de ambiguidade no uso do termo “estratégico” é a falta de distinção clara entre estratégia e tática. Embora ambos os conceitos sejam interdependentes, eles desempenham papéis distintos. Conforme argumentado por Godet (2000), até mesmo autores renomados, como Rumelt e Mintzberg (1998), apresentam definições que misturam essas duas categorias. Essa sobreposição conceitual não apenas dificulta o entendimento acadêmico, mas também confunde gestores ao tentar aplicar princípios estratégicos em contextos táticos.

Para superar as ambiguidades, muitos estudiosos defendem uma categorização hierárquica das decisões organizacionais. Essa abordagem, baseada em níveis como estratégico, operacional e tático, tem raízes históricas na literatura militar (Chandler, 1962; Ackoff, 1990).

A introdução da “arte operacional” como um nível intermediário na década de 1980 trouxe maior clareza às distinções, posicionando-se como a ponte entre estratégia e tática. Luttwak (1980) descreve a arte operacional como a sequência de ações táticas conectadas por uma ideia unificadora, que visa a execução de objetivos estratégicos mais amplos. 

3 MÉTODOS DE DEFINIÇÃO DE ESTRATÉGIA

Uma das formas mais comuns de definir decisões estratégicas na literatura é por meio de listas de atributos. Essa abordagem, amplamente adotada, foi defendida inicialmente por Mintzbert, Raisinghani e Theoret (1976), que destacaram a importância como um atributo central, abrangendo ações, recursos e precedentes:

  1. Ações tomadas: Decisões estratégicas envolvem ações significativas que moldam o direcionamento da organização.
  2. Comprometimento de recursos: Essas decisões demandam a alocação de recursos substanciais, sejam eles financeiros, humanos ou materiais.
  3. Estabelecimento de precedentes: Tais decisões criam precedentes organizacionais que influenciam as decisões futuras.

Esses três atributos principais indicam que decisões estratégicas têm impacto duradouro e abrangente sobre a organização. No entanto, a definição é considerada ampla, o que gerou críticas posteriores por sua generalidade e pela dificuldade de aplicação prática para diferenciar decisões estratégicas de outras categorias, como decisões táticas ou operacionais.

Coyne e Subramaniam (1996) complementam a perspectiva proposta por Mintzbert, Raisinghani e Theoret (1976) ao identificar decisões estratégicas como aquelas que moldam ações futuras, são difíceis de reverter e possuem grande impacto nos objetivos organizacionais.

Outra abordagem comum para a definição de decisões estratégicas é o uso de um contínuo que varia de decisões triviais a altamente estratégicas. Hickson et al. (1986) exploraram essa metodologia, enfatizando que decisões estratégicas se situam em uma extremidade do contínuo. Apesar de sua simplicidade, essa abordagem enfrenta críticas por não estabelecer limites claros entre decisões estratégicas e não estratégicas. Leiblein et al. (2018) destacam a interdependência como um atributo-chave, mas reconhecem que a falta de um ponto de corte objetivo enfraquece sua aplicabilidade.

A abordagem hierárquica, por sua vez, é amplamente reconhecida como a mais robusta para distinguir decisões estratégicas, táticas e operacionais. Originada na literatura militar, essa perspectiva foi adaptada ao campo da gestão por estudiosos como Chandler (1962) e Ackoff (1990). A hierarquia de três níveis — estratégico, operacional e tático — fornece uma estrutura clara para analisar decisões organizacionais.

 3 ESTRATÉGIA, ARTE OPERACIONAL E TÁTICA

A introdução do conceito de “arte operacional” nos estudos militares e gerenciais ajudou a consolidar a hierarquia entre estratégia, operação e tática. Luttwak (1980) define a arte operacional como a sequência de ações táticas conectadas por uma visão unificadora, que visa alcançar objetivos estratégicos. Essa perspectiva preenche uma lacuna histórica na literatura, em que a relação entre estratégia e tática era frequentemente percebida como linear e direta.

A íntima relação entre estratégia e tática é uma das características centrais da hierarquia decisória, mas também a fonte de muitos equívocos. Clausewitz (1832/2008) sugere que a estratégia depende das táticas para sua execução, enquanto as táticas, por si só, são insuficientes para alcançar objetivos maiores. No entanto, quando essa interdependência não é compreendida, surgem problemas como decisões que vencem batalhas táticas, mas perdem a guerra estratégica, conforme ilustrado pelos erros dos EUA no Vietnã (Summers, 2002).

As táticas, frequentemente definidas como ações imediatas e específicas, são elementos indispensáveis para a implementação de estratégias. Freedman (2013) descreve as táticas como a arte de manipular forças em um campo de batalha ou em presença imediata do inimigo. No contexto organizacional, elas representam as atividades práticas que sustentam o plano estratégico.

 4 APLICAÇÕES PRÁTICAS E REFINAMENTO CONCEITUAL

A integração entre estratégia e tática é essencial para o sucesso organizacional, uma vez que estratégias sem bases táticas eficazes carecem de aplicabilidade. Kelly e Brennan (2009) afirmam que, sem uma visão tática clara, estratégias podem estabelecer objetivos inalcançáveis ou subestimar os custos operacionais.

A falta de consenso sobre o que constitui uma decisão estratégica continua a ser uma barreira significativa para o avanço da pesquisa e da prática. Khalifa (2021) observa que muitos estudos se concentram na tomada de decisões estratégicas, mas poucos fornecem definições claras, resultando em ambiguidades que dificultam a comparação de resultados.

A abordagem hierárquica, composta pelos níveis estratégico, operacional e tático, é amplamente reconhecida como uma ferramenta eficaz para organizar e analisar decisões complexas. Ao fornecer um framework estruturado, a hierarquia decisória facilita a alocação de recursos, o desenvolvimento de planos de ação e a avaliação de resultados.

4.1 A análise em âmbito militar: estratégico, estratégico-operacional (ou arte operacional) e tático como níveis de guerra.

A hierarquia dos níveis de guerra — estratégico, operacional e tático — constitui a base para o planejamento e execução de operações militares, vinculando ações específicas à consecução de objetivos nacionais amplos. De acordo com as Publicações Conjuntas (Joint Publications, JP) 1 e 3-0 das Forças Armadas dos Estados Unidos, esses níveis não possuem limites estritos ou fronteiras fixas, mas são ferramentas conceituais que permitem aos comandantes alinhar recursos, atribuições e tarefas de forma coordenada. O objetivo de cada nível — seja estratégico, operacional ou tático — é determinado pela natureza da missão ou tarefa em questão, demonstrando a interdependência e fluidez entre os níveis.

No contexto estratégico, as decisões são orientadas para atingir objetivos nacionais, envolvendo planejamento de longo prazo e a alocação de recursos em escala global. Já no nível operacional, que serve como elo entre o estratégico e o tático, o foco recai sobre a organização e sincronização de campanhas e operações para alcançar os objetivos estratégicos. Esse nível é caracterizado pela aplicação da “arte operacional”, definida como a coordenação de sequências táticas conectadas por uma ideia unificadora, conforme descrito por Luttwak (1980).

A ideia de um nível intermediário começou a ganhar tração no início do século XX, mas foi formalizada apenas com a introdução do conceito de “arte operacional” pela doutrina soviética após a Primeira Guerra Mundial. O modelo soviético buscava coordenar uma série de ações táticas de forma unificada para alcançar objetivos operacionais e, em última instância, estratégicos (Kelly; Brennan, 2009; Madden et al., 2016).  Esse nível intermediário foi amplamente adotado por forças militares ocidentais no final do século XX, como evidenciado pela inclusão da arte operacional no Army Field Manual dos Estados Unidos em 1982, que redefiniu o conceito para incluir o planejamento e a condução de campanhas ​(Kelly; Brennan, 2009).

No Brasil, o Manual de Fundamentos ESTRATÉGIA (EB20-MF-03.106), na sua 5ª edição, destaca que as responsabilidades nos níveis de decisão militar são escalonadas em quatro categorias: político, estratégico, operacional e tático. Esse escalonamento reflete a necessidade de uma estrutura clara para organizar, preparar e conduzir a guerra, com o nível operacional desempenhando um papel fundamental na execução de planos estratégicos por meio de operações táticas. Esse nível atua como um espaço intermediário que traduz as intenções estratégicas em ações concretas e adaptáveis, considerando as condições do ambiente operacional.

Nos ambientes gerenciais, os níveis estratégico, tático e operacional estão intimamente ligados, com o nível tático agindo como um tradutor das diretrizes estratégicas em planos de ação operacional, ou seja, o nível macro, estratégico, define as diretrizes, que são desdobradas em planos pelo nível intermediário, tático, para ser aplicado no nível inferior, operacional. Assim, tem-se em âmbito gerencial o escalonamento: ESTRATÉGICO – TÁTICO – OPERACIONAL. Em contraste, no âmbito militar, o nível OPERACIONAL ou ESTRATÉGICO-OPERACIONAL ou ARTE OPERACIONAL que se refere ao nível intermediário, evoluindo para incluir um escopo mais amplo de responsabilidades, abrangendo o planejamento de campanhas e a sincronização de recursos para atingir objetivos estratégicos. De acordo com o Manual de Fundamentos ESTRATÉGIA (EB20-MF-03.106) do Exército Brasileiro, esse nível opera como uma ponte crítica, alinhando a execução tática com a visão estratégica em um contexto nacional​.

A importância do nível operacional é ressaltada pelo papel que desempenha na sincronização das operações militares. Ele garante que as ações táticas estejam alinhadas ao propósito estratégico e que os recursos sejam alocados de maneira eficiente e eficaz. Essa abordagem ajuda a minimizar a fragmentação das operações, promovendo a coerência em campanhas complexas. Embora o conceito de nível operacional tenha se consolidado recentemente, sua relevância é reconhecida em doutrinas militares modernas, nas quais ele representa um instrumento essencial para a transformação de objetivos amplos em resultados tangíveis no campo de batalha. 

Embora amplamente aceito, o conceito de nível estratégico-operacional não é isento de controvérsias. Estudos recentes apontam que o foco excessivo nesse nível pode enfraquecer a interação entre os níveis estratégico e tático. Kelly e Brennan (2009) argumentam que o deslocamento de responsabilidades estratégicas para o nível operacional pode gerar uma desconexão entre política e guerra, resultando em vitórias táticas que não contribuem para o sucesso estratégico​. Além disso, a introdução desse nível em forças armadas ocidentais frequentemente levou a interpretações conflituosas sobre sua real aplicação e impacto na prática militar e gerencial.

A evolução do nível estratégia-operacional reflete as demandas do ambiente de guerra moderno, que exige maior coordenação e integração de capacidades em níveis múltiplos. Em contextos como a Rússia e os Estados Unidos, o uso desse conceito foi adaptado para responder às complexidades das guerras contemporâneas. Na doutrina russa, por exemplo, o conceito enfatiza manobras profundas e ofensivas operacionais, enquanto a abordagem norte-americana enfatiza a sincronização entre operações convencionais e especiais (Madden et al., 2016; Mattsson; Eklund, 2013) 

5 CONCLUSÃO

A busca por clareza conceitual no campo da gestão estratégica é uma jornada contínua que exige colaboração entre teóricos e profissionais. A confusão em torno do termo “estratégico”, amplamente reconhecida na literatura, limita o progresso acadêmico e a eficácia prática. Estudos como os de Khalifa (2021) e Mintzbert, Raisinghani e Theoret (1976) destacam a necessidade de distinções mais precisas entre estratégia, tática e operação, além de uma maior integração entre esses níveis.

A diferenciação entre os níveis estratégico, tático e operacional é uma base fundamental para o entendimento e aplicação de conceitos tanto em contextos militares quanto gerenciais. No ambiente militar, a introdução do nível estratégico-operacional, ou arte operacional, representa uma evolução conceitual significativa. Ele atua como um elo crítico entre estratégia e tática, focando na organização de campanhas e operações complexas para alcançar objetivos estratégicos amplos

O futuro da gestão estratégica depende de avanços que combinem rigor conceitual com relevância prática. Isso inclui o desenvolvimento de frameworks dinâmicos que reflitam a complexidade do ambiente organizacional contemporâneo. Ao abordar essas questões, a disciplina pode não apenas superar suas limitações atuais, mas também oferecer soluções mais eficazes para os desafios organizacionais do século XXI. 

REFERÊNCIAS

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CHANDLER, A. D. Strategy and Structure. Cambridge, MA: MIT Press, 1962.

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GODET, M. Creating Futures: Scenario Planning as a Strategic Management Tool. Economica, 2000.

GRAY, C. S. The Strategy Bridge: Theory for Practice. New York: Oxford University Press, 2011.

KHALIFA, M. “Understanding Strategic Decisions.” Strategic Management Journal, v.42, p.23-45, 2021.

KELLY, J.; BRENNAN, L. Operational Design: Bridging the Gap Between Strategy and Tactics. Military Journal, 2009.

MADDEN, D. et al. Toward Operational Art in Special Warfare. Santa Monica/California: RAND Corporation, 2016.

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MINTZBERG, Henry; RAISINGHANI, Duru; THEORET, Andre. The structure of” unstructured” decision processes. Administrative science quarterly, p. 246-275, 1976.

MINTZBERG, H.; WESTLEY, F. “Decision Making: It’s Not What You Think.” California Management Review, v.43, n.1, p.89-96, 2001.

SUMMERS, H. G. On Strategy: The Vietnam War in Context. New York: Random House, 2002.

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    Como citar este texto

    FOUREAUX, Rodrigo. Estratégico, Tático e Operacional como níveis de decisão: aplicação militar e gerencial. CJPol, Brasília/DF. Disponível em: <https://cjpol.com.br/gestao_ativ_policial/estrategico-tatico-e-operacional-como-niveis-de-decisao-aplicacao-militar-e-gerencial/>. Acesso em: 21/10/2026.