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 1 INTRODUÇÃO

A dualidade entre os ethos “guerreiro” e “guardião” nas polícias configura um tema central na discussão sobre a identidade e o papel das forças de segurança em sociedades democráticas. Enquanto o ethos guerreiro privilegia uma abordagem combativa e focada na repressão ao crime, o ethos guardião enfatiza a conexão com a comunidade, a resolução pacífica de conflitos e o respeito aos direitos humanos. Essa dicotomia não apenas molda a cultura organizacional das polícias, mas também impacta diretamente as percepções e relações entre agentes de segurança e cidadãos.

A mentalidade guerreira, enraizada em práticas militarizadas e em uma visão adversarial do público, muitas vezes contribui para o isolamento social dos policiais e a escalada de conflitos. Por outro lado, o ethos guardião, ao promover o engajamento comunitário, busca consolidar a confiança e a colaboração entre as partes. Contudo, a coexistência desses dois modelos dentro das forças policiais reflete a complexidade de uma cultura ocupacional influenciada por fatores históricos, sociais e institucionais.

O treinamento policial e as políticas públicas exercem papel determinante na perpetuação ou transformação dessas mentalidades. Instituições que reforçam táticas agressivas e incentivam posturas combativas tendem a dificultar a adoção de práticas mais inclusivas. Alternativamente, reformas no currículo de formação, com maior ênfase em direitos humanos e na comunicação estratégica, podem fomentar a transição para o ethos guardião, alinhando as práticas policiais aos princípios de segurança pública democrática.

Este texto analisa as características, impactos e desafios associados a essas duas abordagens, destacando as implicações para o policiamento moderno. 

2 MENTALIDADES DE GUERREIRO E GUARDIÃO

A mentalidade de guerreiro encara o trabalho policial como uma batalha constante contra o crime, em que os policiais são “guerreiros” que enfrentam “inimigos”. Essa mentalidade é amplamente caracterizada por uma visão adversarial, na qual o público é percebido como uma ameaça em potencial e pode levar a uma ênfase excessiva na força e na necessidade de controle, priorizando a segurança do policial acima de tudo.

Essa característica de desconfiança é típica do ambiente ocupacional da polícia. Segundo Skolnick (1994, p. 60) “é da natureza da situação do policial que sua concepção de ordem enfatize a regularidade e previsibilidade. É, portanto, uma concepção moldada pela suspeita persistente”.

Os problemas que os policiais enfrentam em seus ambientes ocupacionais e organizacionais, assim como os mecanismos de enfrentamento prescritos pela cultura policial, produzem como resultado cultural o isolamento social (Paoline III, 2003). Embora a ocupação de policiamento em si já trabalhe para separar os policiais da sociedade em geral, devido às tensões do trabalho, os turnos de trabalho, imprevisibilidade de escalas de serviço, trabalhos noturnos, em fins de semana e feridos (Drummond, 1976; Fielding, 1988; Reiner, 1985), os principais fatores que contribuem para o isolamento social são encontrados no ambiente ocupacional dos policiais. A hostilidade e o perigo no ambiente ocupacional, assim como o poder coercitivo que os policiais exercem, separam-nos dos “não-policiais” (Paoline, 2003). As prescrições para serem desconfiados e manter a vantagem sobre os cidadãos contribuem ainda mais para o isolamento dos policiais em relação ao público.

A analogia do “cão pastor”, presente nas fontes, ilustra essa mentalidade, onde os policiais são os protetores dos “cidadãos-ovelhas” contra os “criminosos-lobos”.

Se você não tem capacidade para a violência, então você é um cidadão saudável e produtivo: uma ovelha. Se você tem capacidade para a violência e nenhuma empatia pelos seus concidadãos, então você definiu um sociopata agressivo — um lobo. Mas e se você tem capacidade para a violência e um amor profundo pelos seus concidadãos? Então você é um cão pastor, um guerreiro, alguém que está trilhando o caminho do herói. Alguém que pode caminhar no coração das trevas, na fobia humana universal, e sair ileso (Grossman; Christensen, 2022).

No entanto, essa analogia pode ser problemática, pois, diferentemente do mundo animal, na sociedade humana não é possível distinguir visualmente “cidadãos de bem” e “criminosos”. A mentalidade guerreira pode criar barreiras entre a polícia e a comunidade, dificultando a colaboração e a resolução pacífica de conflitos.

Simon (2021) observa que academias de polícia frequentemente reforçam essa postura ao moldar o relacionamento com a comunidade como um confronto inevitável, legitimando o uso da violência.

Por outro lado, o ethos de guardião busca uma conexão com a comunidade, utilizando comunicação e empatia como ferramentas centrais para a manutenção da ordem (McLean et al., 2020). No entanto, a coexistência dessas duas mentalidades dentro das forças policiais reflete a complexidade da cultura ocupacional, que é influenciada por fatores históricos, sociais e institucionais.

2.1 Impactos na cultura policial

A prevalência do ethos guerreiro molda a cultura policial ao valorizar comportamentos agressivos e estratégias militarizadas, como políticas de tolerância zero (Deuchar; Crichlow; Fallik, 2021). Essa postura é frequentemente associada a noções tradicionais de masculinidade, reforçando uma cultura de honra e resistência a mudanças (Sørbøe et al., 2020).

Embora a perspectiva de guerreiro tenha sido amplamente criticada, Willis et al. (2017) destacam que a cultura policial é mais complexa, não se limitando ao cinismo ou à aceitação incondicional de táticas coercitivas. Essa multiplicidade de fatores evidencia a necessidade de uma abordagem mais integrada e reflexiva na construção de práticas policiais.

O estudo seminal sobre cultura organizacional entre departamentos de polícia foi realizado por Wilson (1968). Wilson identificou três tipos de estilos departamentais (legalista, guardião e de serviço) que variavam com relação à ênfase sobre duas funções principais da polícia: aplicação da lei e manutenção da ordem.

O relato organizacional de Wilson (1968) sobre a cultura policial diferiu da representação da cultura ocupacional, pois Wilson sugeriu que havia variação nos ambientes organizacionais entre os departamentos. Departamentos de estilo legalista concentram-se no combate ao crime e representariam o ambiente organizacional “típico” descrito nos relatos tradicionais da cultura ocupacional. Departamentos de estilo guardião e de serviço, com menos ênfase no combate ao crime e menos controles administrativos e pressões sobre os policiais, representam ambientes organizacionais contrastantes. Como tal, as maneiras pelas quais os policiais podem lidar com seus ambientes organizacionais podem diferir entre diferentes tipos de departamentos.

Pode-se esperar que policiais em departamentos de estilo de serviço, cujo ethos predominante é de Guardião, os quais são esperados para “servir” o público, sejam menos desconfiados dos cidadãos e sintam menos necessidade de manter a vantagem sobre eles, em comparação com policiais em departamentos de estilo legalista, cujo ethos predomina o Guerreiro.

2.2 Treinamento e socialização institucional

A cultura policial é transmitida por meio da socialização que atravessa gerações ocupacionais, começando na academia de treinamento e continuando ao longo da carreira do policial. Van Maanen (1974) observa que o processo de socialização fornece ao novo membro um conjunto de regras, perspectivas, técnicas e/ou ferramentas para que ele continue como participante da organização.

O processo de socialização dos policiais começa na academia de treinamento, onde os novos recrutas aprendem sobre os ambientes (tanto ocupacionais quanto organizacionais) em que trabalham. Durante essa fase inicial, a coesão do grupo e a lealdade são enfatizadas em um ambiente paramilitar (Bahn, 1984; Van Maanen, 1974). Uniformidade na aparência, atitude e comportamento, assim como a estrita adesão às regras e procedimentos, são esperadas de todos os recrutas. O aprendizado inicial geralmente começa com “histórias de guerra” contadas por policiais veteranos. O processo de socialização se intensifica quando os novos recrutas “vão para as ruas” com seus oficiais de treinamento em campo e outros policiais experientes (Van Maanen, 1974).

Assim, as academias de polícia desempenham um papel crucial na perpetuação da mentalidade guerreira. Como observado por Sierra‐Arévalo et al. (2021), prêmios e incentivos institucionais muitas vezes reforçam comportamentos agressivos, negligenciando iniciativas comunitárias. Esse processo de socialização cria um ciclo de retroalimentação, dificultando a adoção do ethos de guardião.

Simon (2021) sugere que mudanças nos currículos de treinamento, com ênfase em direitos humanos e resolução de conflitos, poderiam mitigar esses efeitos. Reformas no treinamento policial são, portanto, essenciais para alinhar as práticas operacionais aos valores de um policiamento mais inclusivo e colaborativo.

2.3 Consequências do Ethos Guerreiro

A mentalidade de guerreiro gera impactos significativos tanto nas relações entre polícia e comunidade quanto na percepção pública da instituição. Sweeney (2021) argumenta que essa abordagem mina os valores do policiamento comunitário, corroendo a confiança e fomentando hostilidade mútua.

Além disso, McCarthy, McLean e Alpert (2023) associam o ethos guerreiro a um maior apoio ao uso da força e a percepções amplificadas de ameaça, o que frequentemente escala confrontos desnecessariamente. Esses efeitos prejudicam tanto a segurança pública quanto o bem-estar dos policiais, evidenciando a necessidade de reavaliar as prioridades estratégicas das forças de segurança.

As fontes sugerem que a Teoria do Posicionamento (TP) pode ajudar a entender como as mentalidades guerreira e guardiã se manifestam nas interações entre policiais e cidadãos. A TP analisa como as palavras e os rótulos influenciam as percepções e os comportamentos, moldando as interações sociais. Rotular policiais como “guerreiros” pode reforçar uma postura de confronto e distanciamento da comunidade.

A Teoria do Posicionamento (TP) oferece uma estrutura para entender como as pessoas usam a linguagem e o discurso para se posicionarem e posicionar os outros em interações sociais. As fontes, principalmente o capítulo sobre a revisão da literatura, examinam a TP em profundidade, destacando seus principais conceitos e aplicações.

Principais Conceitos da TP:

  1. Posições: Uma posição em uma interação social representa um conjunto específico de direitos, deveres e obrigações que uma pessoa assume ou atribui a si mesma e aos outros. Essas posições são fluidas, contestáveis e podem mudar ao longo da interação.
  2. Atos de Fala (Forças Ilocutórias): As palavras e ações que as pessoas usam durante uma interação são consideradas atos de fala. Esses atos fornecem contexto e significado à interação, influenciando como os participantes interpretam as posições uns dos outros.
  3. Enredos: Os enredos são baseados em convenções sociais, costumes ou cerimônias compartilhadas pelos participantes da interação. Eles moldam as expectativas dos indivíduos sobre como os eventos se desenrolarão e influenciam suas posições e atos de fala.

A TP utiliza o conceito do Triângulo do Posicionamento, que ilustra a interconexão entre posições, atos de fala e enredos. A alteração de qualquer um desses elementos pode influenciar o curso da interação e o resultado desta interação.

A TP pode ser aplicada para analisar e resolver conflitos, pois destaca como as palavras e as posições podem criar ou exacerbar tensões:

  1. Estratégias de Promoção da Paz: A TP sugere estratégias discursivas que podem ser utilizadas para promover a paz, como a atribuição igualitária de direitos e deveres, a identificação dos participantes como membros do mesmo grupo e a ênfase em motivações benignas.
  2. Estratégias de Fomento ao Conflito: Por outro lado, a TP também identifica estratégias discursivas que podem fomentar conflitos, como acusações, atribuição de características negativas a grupos e a deslegitimação dos outros.

 

A TP tem sido aplicada em diversas áreas, desde estudos de gênero até a análise de conflitos internacionais. No contexto da atuação policial, a TP pode ser utilizada para:

  1. Compreender a dinâmica entre policiais e cidadãos: Analisando como os policiais se posicionam em relação aos cidadãos e vice-versa, pode-se identificar potenciais fontes de conflito e desenvolver estratégias para promover interações mais pacíficas.
  2. Treinar policiais para usar a linguagem de forma mais eficaz: Ao entenderem como suas palavras e ações podem influenciar o comportamento dos outros, os policiais podem ser treinados para se comunicarem de forma mais estratégica, desescalando conflitos e construindo confiança com a comunidade.
  3. Analisar o debate “guerreiro versus guardião”: A TP pode ser utilizada para examinar como os rótulos “guerreiro” e “guardião” moldam as percepções e os comportamentos dos policiais.

Fonte: Baseado em Dayley (2016).

Evitar rótulos que criem divisões e, em vez disso, promover uma identidade compartilhada entre policiais e cidadãos como membros da mesma comunidade auxilia na resolução pacífica de conflitos e desescalada de uso de força.

2.4 Desafios e perspectivas para o Ethos de Guardião

A implementação do ethos de guardião enfrenta desafios significativos devido à forte influência histórica e cultural do ethos guerreiro. McLean et al. (2020) apontam que a resistência às práticas baseadas no guardião está ligada à percepção de eficácia imediata das estratégias agressivas. Além disso, Deuchar, Crichlow e Fallik (2021) destacam que o apoio político a políticas repressivas muitas vezes reforça essa mentalidade. Superar essas barreiras requer reformas abrangentes, que vão desde mudanças nas políticas públicas até a reconfiguração dos sistemas de incentivos institucionais.

3 CONCLUSÃO

A análise das mentalidades guerreiro e guardião revela a profundidade do impacto dessas abordagens na cultura policial e no relacionamento entre as forças de segurança e a sociedade. O ethos guerreiro, com sua ênfase em táticas combativas e percepção adversarial do público, destaca-se como uma herança histórica que molda comportamentos e práticas, muitas vezes em detrimento da confiança e da colaboração comunitária. Em contrapartida, o ethos guardião propõe um modelo de policiamento mais humano e orientado ao serviço público, priorizando a comunicação, a empatia e a resolução pacífica de conflitos como pilares fundamentais para a segurança pública em sociedades democráticas.

Embora o ethos guardião represente um avanço promissor, a implementação desse modelo enfrenta barreiras significativas, especialmente devido à resistência cultural enraizada no ethos guerreiro e às pressões institucionais que favorecem estratégias repressivas. A transformação dessa realidade requer uma abordagem multidimensional que inclua reformas no treinamento policial, políticas públicas integradas e mudanças na cultura organizacional. A adoção de práticas baseadas no ethos guardião não deve ser vista como uma substituição completa ao ethos guerreiro, mas sim como um equilíbrio necessário para atender às demandas contemporâneas de segurança e justiça social.

Portanto, o futuro do policiamento exige uma reavaliação crítica dos paradigmas operacionais e institucionais que regem as forças de segurança. A integração de valores de firmeza e empatia, associados a incentivos que valorizem a resolução pacífica e o engajamento comunitário, pode promover uma nova era para o trabalho policial. Essa transformação não apenas fortalecerá a legitimidade das polícias, mas também contribuirá para a construção de uma sociedade mais segura, justa e colaborativa. Com isso, a superação do dilema guerreiro versus guardião pode ser o ponto de partida para uma reformulação das práticas e dos valores que orientam o serviço policial.

REFERÊNCIAS 

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    Como citar este texto

    FARIA. Antônio Hot Pereira de. Ethos Guerreiro vs Ethos Guardião nas polícias e seus impactos. CJPol, Brasília/DF. Disponível em: <https://cjpol.com.br/seguranca_publica/ethos-guerreiro-vs-ethos-guardiao-nas-policias-e-seus-impactos/>. Acesso em: 21/10/2026.