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Suprema Corte do Canadá

 

Randy Fleming foi preso pela polícia de Ontário enquanto carregava uma bandeira canadense durante um protesto indígena. A polícia argumentou que sua presença poderia incitar um conflito, embora Fleming não estivesse violando nenhuma lei no momento da sua prisão.

Fato

No dia 24 de maio de 2009, Randy Fleming estava participando de um protesto em Caledonia, Ontário, relacionado a uma disputa de terras entre a comunidade indígena das Seis Nações e o governo canadense. Fleming estava caminhando ao lado de uma estrada pública, carregando uma bandeira canadense, em uma área onde estava ocorrendo um protesto indígena.

Preocupada com a possibilidade de que a presença de Fleming pudesse incitar um confronto entre ele e os manifestantes indígenas, a Polícia Provincial de Ontário (OPP) ordenou que ele deixasse a área. Fleming se recusou a obedecer a essa ordem, argumentando que ele estava exercendo seu direito de liberdade de expressão em um espaço público. Como resultado, os policiais o prenderam e o retiraram do local.

Fleming foi acusado de resistir à prisão e de obstrução da justiça, mas essas acusações foram posteriormente retiradas. Ele então processou a polícia, alegando prisão ilegal, violação de seus direitos à liberdade e à segurança pessoal garantidos pela Carta Canadense de Direitos e Liberdades.

Decisão

Em 4 de outubro de 2019, a Suprema Corte do Canadá emitiu sua decisão em favor de Randy Fleming. A Corte concluiu que a polícia não tinha justificativa legal para prender Fleming, uma vez que ele não estava envolvido em nenhuma atividade ilegal no momento da prisão. A decisão estabeleceu que prender alguém preventivamente para evitar a possibilidade de uma violação da paz por terceiros é uma violação dos direitos dessa pessoa, a menos que haja uma ameaça iminente e real. A Corte ressaltou que a prisão preventiva sem base legal sólida representa uma grave violação das liberdades civis.

Fundamentos

A Suprema Corte do Canadá utilizou diversos fundamentos jurídicos e constitucionais para decidir em favor de Randy Fleming. Os principais pontos abordados na decisão incluem:

Prisão Ilegal e Arbitrária: A Corte concluiu que a prisão de Fleming foi ilegal porque não havia nenhuma justificativa legal para tal ação. Fleming não estava envolvido em qualquer atividade ilegal ou violenta no momento de sua prisão. A Corte enfatizou que a prisão preventiva de uma pessoa, sem base em uma violação real da lei, é arbitrária e uma violação dos direitos individuais.

Proteção dos Direitos de Expressão: A Suprema Corte sublinhou que a liberdade de expressão é um direito fundamental garantido pela Carta Canadense de Direitos e Liberdades. A presença de Fleming no protesto, carregando uma bandeira canadense, foi considerada uma forma legítima de expressão política. A Corte destacou que limitar essa expressão sem uma justificativa clara e iminente é uma violação dos direitos garantidos pela Carta.

Ameaça Iminente e Real: A decisão enfatizou que a polícia só pode justificar a prisão preventiva de uma pessoa se houver uma ameaça iminente e real à paz pública. No caso de Fleming, a polícia não apresentou provas concretas de que sua presença representava uma ameaça imediata. A Corte afirmou que meras especulações ou possibilidades não são suficientes para justificar uma prisão preventiva.

Equilíbrio entre Segurança Pública e Liberdades Civis: A Corte abordou o equilíbrio necessário entre a manutenção da ordem pública e a proteção das liberdades civis. Enquanto a polícia tem a responsabilidade de manter a ordem, essa responsabilidade não pode ser exercida às custas dos direitos fundamentais dos indivíduos. A decisão reiterou que qualquer limitação aos direitos civis deve ser bem fundamentada e proporcional à ameaça enfrentada.

Precedentes Jurídicos: A decisão da Suprema Corte também se baseou em precedentes jurídicos anteriores que protegem os direitos individuais contra detenções arbitrárias. A Corte citou casos anteriores que reforçam a necessidade de justificativas claras e sólidas para qualquer ação policial que limite as liberdades civis. Alguns casos citados foram:

    1. vs. Mann (2004):Este caso envolveu a questão da detenção temporária pela polícia para fins de investigação. A Corte determinou que tal detenção deve ser razoável e baseada em uma suspeita razoável de envolvimento em uma atividade criminosa. A decisão enfatizou que as ações policiais devem ser justificadas e proporcionais.
    2. vs. Clayton (2007):No caso Clayton, a Corte examinou a questão de detenções de bloqueios rodoviários pela polícia. A decisão afirmou que, para serem justificadas, essas detenções devem ser razoáveis e necessárias para prevenir crimes graves. A proporcionalidade e a justificativa clara são essenciais para a legalidade de tais detenções.
    3. vs. Grant (2009):Este caso abordou os limites da detenção e busca policial. A Corte estabeleceu um teste para determinar se uma detenção é arbitrária, considerando fatores como a natureza da interferência com a liberdade individual e a justificativa apresentada pela polícia. A decisão sublinhou a importância de proteger os direitos garantidos pela Carta Canadense de Direitos e Liberdades.
    4. vs. Fearon (2014):O caso Fearon tratou da busca em dispositivos eletrônicos durante uma detenção. A Corte decidiu que, para realizar tal busca, a polícia deve ter uma justificativa razoável e a busca deve ser realizada de maneira proporcional aos objetivos de aplicação da lei. A decisão destacou a necessidade de equilibrar a segurança pública com os direitos de privacidade.
    5. vs. MacDonald (2014):Neste caso, a Corte examinou a questão da segurança dos oficiais de polícia ao lidar com situações potencialmente perigosas. A decisão afirmou que a polícia tem o direito de tomar medidas razoáveis para garantir sua própria segurança, mas essas medidas devem ser proporcionais e justificadas pelas circunstâncias.

Além de julgados passados, os principais dispositivos legais utilizados para embasar a decisão foram:

Carta Canadense de Direitos e Liberdades

Seção 2(b): Garante a liberdade de pensamento, crença, opinião e expressão, incluindo a liberdade de imprensa e outros meios de comunicação.

Seção 7: Garante o direito à vida, liberdade e segurança da pessoa, e que estes não sejam privados exceto de acordo com os princípios de justiça fundamental.

Seção 9: Garante o direito de não ser arbitrariamente detido ou preso.

Código Criminal do Canadá – Seção 31(1): Trata da manutenção da paz por um policial e a autoridade para prender alguém para evitar uma violação da paz. No entanto, a Corte determinou que a polícia não tinha justificativa suficiente para aplicar essa seção no caso de Fleming.

Princípios de Direito Comum (Common Law): A decisão também fez referência aos princípios de direito comum que orientam as ações policiais, especialmente no que diz respeito à detenção e prisão preventivas, sublinhando que estas devem ser razoáveis, justificadas e proporcionais às circunstâncias.

Acesse o julgado na íntegra em:

https://www.canlii.org/en/ca/scc/doc/2019/2019scc45/2019scc45.html

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    Como citar este texto

    FOUREAUX, Rodrigo. Suprema Corte do Canadá reafirma direitos de expressão e liberdade individual durante protesto. É ilegal prisão preventiva injustificada.. CJPol, Brasília/DF. Disponível em: <https://cjpol.com.br/casos_internacionais/suprema-corte-do-canada-reafirma-direitos-de-expressao-e-liberdade-individual-durante-protesto-e-ilegal-prisao-preventiva-injustificada/>. Acesso em: 21/10/2026.