RESUMO
O texto explora a ciência como uma combinação de princípios e técnicas que visam compreender e explicar o universo e os fenômenos sociais. No contexto do Policiamento Baseado em Evidências, a pesquisa científica é aplicada para resolver problemas práticos enfrentados por instituições. As pesquisas podem ser classificadas em três níveis: exploratória, descritiva e explicativa. A pesquisa exploratória busca familiaridade com o fenômeno, a descritiva caracteriza populações ou fenômenos, e a explicativa identifica causas e efeitos. O processo de pesquisa no policiamento segue um ciclo estruturado de identificação de problemas, revisão bibliográfica, formulação de hipóteses, experimentação, análise e compartilhamento dos resultados).
Palavras-chave: ciência; método científico; classificação dos tipos de pesquisa; processo de construção conhecimento; policiamento baseado em evidências.
1 INTRODUÇÃO
Não há consenso sobre o que é a ciência, embora a maioria dos cientistas concorde que é uma combinação de princípios e técnicas. A ciência visa criar, organizar e compartilhar conhecimento sobre como o universo funciona, usando princípios de lógica, racionalidade e objetividade. O objetivo geral das ciências sociais é descrever e explicar o mundo humano e o ambiente ao nosso redor, e testar teorias e ideias sobre como ele funciona.
O método, conforme etimologia da palavra da palavra de origem grega, significa “na direção do caminho”. Neste sentido, o método científico representa a definição do caminho realizado pelo pesquisador para, a partir da definição de um problema, buscar a produção do conhecimento para sua resolução.
Em termos do Policiamento Baseado em Evidências, a pesquisa científica sempre terá natureza aplicada. A pesquisa aplicada concentra-se em torno dos problemas presentes nas atividades das instituições, organizações, grupos ou atores sociais. Ela está empenhada na elaboração de diagnósticos, identificação de problemas e busca de soluções. Responde a uma demanda formulada por “clientes, atores sociais ou instituições” (Thiollent, 2009, p. 36).
A pesquisa sobre fatos sociais, como indica a própria noção de social, é múltipla, uma vez que fenômenos sociais demandam diferentes estratégias e abordagens. Discussões sobre metodologia de pesquisa levam a considerar, em conjunto, diferentes possibilidades: experimentos, quasi-experimentos, entrevistas, grupos focais, etnografia, pesquisa-ação e levantamentos, que podem ser tratados a partir dos princípios da estatística diferencial, análise multivariada de dados, modelagem de equação estrutural ou metanálise (Robson, 2002; Breakwelll et al., 2006; Outhwaite, Turner, 2007; Neuman, 2007).
2 CARACTERÍSTICAS DAS PESQUISAS APLICADAS AO POLICIAMENTO BASEADO EM EVIDÊNCIAS
2.1 Repetibilidade e reprodutibilidade no Método Científico
Repetibilidade e reprodutibilidade são características fundamentais do método científico que asseguram a confiabilidade e a validade dos resultados obtidos em experimentos e pesquisas.
A repetibilidade refere-se à capacidade de um experimento ou estudo ser replicado, sob as mesmas condições, e produzir resultados consistentes. Esta característica é crucial porque garante que os resultados não são fruto de variáveis aleatórias ou erros experimentais. A repetibilidade envolve a precisão nas medições e a consistência dos procedimentos aplicados durante a realização de um estudo.
A reprodutibilidade, por outro lado, refere-se à capacidade de um experimento ou estudo ser replicado por diferentes pesquisadores, em locais distintos, e ainda assim produzir resultados consistentes. A reprodutibilidade é essencial para a validação independente dos resultados e para a construção de um corpo robusto de conhecimento científico. Este aspecto do método científico permite que os resultados obtidos por um grupo de pesquisadores sejam verificados e confirmados por outros grupos, reduzindo o impacto de vieses pessoais ou de metodologias específicas.
A combinação de repetibilidade e reprodutibilidade fortalece a credibilidade das descobertas científicas. Estes conceitos asseguram que os resultados não são isolados ou idiossincráticos, mas sim parte de um padrão que pode ser observado consistentemente. Em outras palavras, a ciência avança e se consolida quando os experimentos e observações podem ser repetidos e reproduzidos, permitindo que os pesquisadores construam conhecimento de maneira cumulativa e confiável.
Repetibilidade e reprodutibilidade são pilares essenciais do método científico, garantindo a consistência e a validação independente dos resultados. Estas características são fundamentais para a construção de um conhecimento científico robusto e confiável, permitindo que descobertas e teorias sejam confirmadas por múltiplos estudos e por diferentes pesquisadores.
2.2 Níveis de pesquisa
Em termos de nível de pesquisa aplicadas ao Policiamento Baseado em Evidências, pode-se afirmar que as pesquisas aplicadas com esta finalidade perfazem os três níveis de pesquisa: exploratória, descritiva e explicativa.
- A pesquisa exploratória segundo Selltiz et al. (1965), enquadram-se na categoria dos estudos exploratórios todos aqueles que buscam descobrir ideias e intuições, na tentativa de adquirir maior familiaridade com o fenômeno pesquisado. Nem sempre há a necessidade de formulação de hipóteses nesses estudos. Eles possibilitam aumentar o conhecimento do pesquisador sobre os fatos, permitindo a formulação mais precisa de problemas, criar novas hipóteses e realizar novas pesquisas mais estruturadas. Para Gil (1999), a pesquisa exploratória tem como objetivo principal desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores.
- as pesquisas descritivas têm como finalidade principal a descrição das características de determinada população ou fenômeno, ou o estabelecimento de relações entre variáveis (Gil, 1999). Esse tipo de pesquisa, segundo Selltiz et al. (1965), busca descrever um fenômeno ou situação em detalhe, especialmente o que está ocorrendo, permitindo abranger, com exatidão, as características de um indivíduo, uma situação, ou um grupo, bem como desvendar a relação entre os eventos.
- a pesquisa explicativa tem como objetivo básico a identificação dos fatores que determinam ou que contribuem para a ocorrência de um fenômeno. É o tipo de pesquisa que mais aprofunda o conhecimento da realidade, pois tenta explicar a razão e as relações de causa e efeito dos fenômenos. Este tipo de pesquisa visa estabelecer relações de causa-efeito por meio da manipulação direta das variáveis relativas ao objeto de estudo, buscando identificar as causas do fenômeno (Lakatos; Marconi, 2001). Normalmente, é mais realizada em laboratório do que em campo. A pesquisa causal (explicativa) baseia-se, muitas vezes, em experimentos, envolvendo hipóteses especulativas, definindo relações causais. Como os requisitos para a prova de causalidade são muito exigentes, as questões de pesquisa e as hipóteses relevantes têm que ser muito específicas (Aaker; Kumar; Day, 2004).
Assim, a pesquisa aplicada no Policiamento Baseado em Evidências perpassa pelos três níveis de pesquisa. Inicialmente, o profissional deve realizar uma pesquisa exploratória para se familiar com as abordagens teóricas que se relacionam ao objeto, a fim de ter melhores condições de elaborar o problema e as hipóteses de pesquisa. Num segundo momento, o pesquisador deve realizar um diagnóstico profundo do fenômeno, de maneira a identificar as variáveis intervenientes e passíveis de medição na terceira fase, a pesquisa explicativa, a qual é desencadeada normalmente pela aplicação de experimentos ou quasi-experimentos.
3 PROCESSO DE PESQUISA NO POLICIAMENTO BASEADO EM EVIDÊNCIAS
Segundo Karl Popper, o conhecimento que deriva da ciência exige a capacidade de testar uma hipótese contra nossa experiência observável. Ratcliffe (2023) organizou esse processo formal de produção do conhecimento, o qual foi adaptado na Figura 1.
Figura 1 – Síntese do método científico
![]() |
Fonte: Adaptado de Ratcliffe (2023).
O ponto de partida do processo e a identificação de um problema, que pode ser a concentração de crimes contra o patrimônio num determinado setor, arrombamentos de veículos estacionados em determinadas ruas, a incidência de intervenções policiais com uso de força etc.
A partir da identificação do problema o pesquisador busca em repositórios, bibliotecas ou bases bibliográficas online ou outras fontes de conhecimento produzido e disponível fontes para que possa aprofundar o conhecimento sobre o fenômeno identificado no problema. Para tanto, o pesquisador utilizará de palavras-chave relacionadas ao problema para definir os critérios de busca. Após consumir os conteúdos disponíveis, o pesquisador deve sistematizar o conhecimento obtido promovendo uma revisão bibliográfica sobre as teorias que podem ser explicativas para o “fenômeno-problema”, bem como o estado da arte acerca dele, de maneira a buscar elementos que permitam formular mais adequadamente a questão a ser investigada e suas possíveis causas e formas de controle/combate/prevenção.
A pesquisa exploratória fornece então subsídios para que o pesquisador tenha condições de delimitar melhor o problema de pesquisa, bem como suas possíveis respostas (hipóteses).
Ratcliffe (2023) cita como exemplo que a o policial-pesquisador verifica bibliotecas online e sites para aprender mais sobre crimes de veículos e, a partir dessa pesquisa de base, descobre que o aumento da patrulha a pé pela polícia pode ser eficaz (etapa 2). Então pensa: “dobrar as patrulhas de segurança em áreas de alta criminalidade reduziria os crimes de veículos em 20%?”. Essa é sua hipótese e pergunta de pesquisa (etapa 3).
Para buscar a análise de validação ou falseamento da hipótese elencada, o pesquisador deve elaborar um experimento contendo as variáveis de análise. Para tanto, deve definir quais variáveis serão controladas pelo pesquisador e quais serão medidas para verificar a capacidade de intervenção.
Uma variável independente é uma variável que representa uma grandeza que está sendo manipulada em um experimento, por exemplo a dosagem de policiamento em um experimento de policiamento de hot spots) e as variáveis dependentes são aquelas que estão sendo medidas ou testadas em um experimento, por exemplo: número de crimes contra o patrimônio por unidade de análise, dano do crime, número de chamadas de emergência policial etc.
O policial-pesquisador implementa o experimento (etapa 4) por um período suficiente para que seja possível verificar a influência do teste na área de análise. Durante o período, deve-se acompanhar constantemente se de fato o que foi planejado (aumento do policiamento, por exemplo) está efetivamente sendo cumprido. Após o período definido deve comparar a(s) variável(is) dependentes (número de crimes contra o patrimônio por exemplo) com relação ao período anterior à instalação de patrulhas adicionais nas áreas-alvo, bem como o resultado das mesmas variáveis em locais onde não foi realizada a instalação de recursos adicionais (áreas-controle).
A partir dos resultados do experimento, o policial-pesquisador tem condições de concluir (etapa 5) se há impacto no comportamento do fenômeno estudado (medido pelas variáveis dependentes – número de crimes contra o patrimônio, por exemplo) com relação à aplicação da intervenção (medido pela variável independente – adição de patrulhas adicionais) e, em qual medida ocorre esse impacto.
Após a conclusão, o pesquisador socializa seus achados por meio da publicação dos resultados (etapa 6), preferencialmente em um veículo de comunicação científica ou outro meio (repositórios de evidências, blogs etc.) de forma que seja acessível para outros policiais, acadêmicos, demais profissionais de segurança pública, políticos etc., para que sirva de parâmetros para a adoção de estratégias ou influência na aplicação de políticas públicas.
Como produto da solução do problema elencado surgem outras indagações: o incremento de patrulhas policiais pode ser feito em menor quantidade? É necessário que o aumento das patrulhas seja feito em todos os dias? Pode-se mudar a característica dos recursos utilizados (patrulhas) pela instalação de câmeras? Outros recursos policiais (patrulhas hipomóveis, policiamento à pé, policiamento com bicicletas etc.) produzem os mesmos efeitos? Diante das novas questões (etapa 7), o pesquisador retorna à etapa 1, iniciando o ciclo de produção de conhecimento por meio de evidências.
4 CONCLUSÕES
A presente explanação sobre a ciência e a pesquisa aplicada ao Policiamento Baseado em Evidências sublinha a importância de um rigor metodológico na investigação científica. A ciência, enquanto empreendimento humano, busca desvelar os mistérios do universo por meio da aplicação de princípios de lógica, racionalidade e objetividade, estruturando-se como um baluarte do conhecimento organizado e compartilhado. Neste contexto, o método científico emerge como um guia imprescindível, traçando o caminho a ser seguido pelos pesquisadores na resolução de problemas complexos.
No âmbito do Policiamento Baseado em Evidências, a pesquisa científica reveste-se de um caráter eminentemente aplicado, orientando-se pela resolução de problemas concretos enfrentados por instituições e atores sociais.
O processo de pesquisa no Policiamento Baseado em Evidências, conforme adaptado por Ratcliffe (2023), delineia um ciclo metódico e contínuo que abrange desde a identificação do problema até a socialização dos resultados obtidos. Este ciclo promove não apenas a adoção de estratégias fundamentadas em evidências, mas também a contínua produção e refinamento do conhecimento. Ao validar ou refutar hipóteses mediante experimentação rigorosa e análise criteriosa, o pesquisador contribui de maneira significativa para o aprimoramento das práticas policiais e para a implementação de políticas públicas mais eficazes, robustecendo, assim, o tecido social.
REFERÊNCIAS
AAKER, David A.; KUMAR, V.; DAY, George S. Marketing research. 8. ed. Hoboken: John Wiley & Sons, 2004.
BREAKWELLL , G. et al.. Research Methods in Psychology. U.S.: Sage, 2006.
CHALMERS, Alan F. What is this thing called science? 3rd ed. Indianapolis: Hackett Publishing, 1999.
FISHER, Ronald Aylmer. The design of experiments. 9th ed. New York: Hafner Publishing Company, 1971.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999.
KUHN, Thomas S. The structure of scientific revolutions. 3rd ed. Chicago: University of Chicago Press, 1996.
LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2001.
MAYR, Ernst. The growth of biological thought: diversity, evolution, and inheritance. Cambridge: Harvard University Press, 1982.
NEUMAN , W. L.. Social Research Methods: Qualitative and Quantitative Approaches. U.S.: Pearson, 1994.
OUTHWAITE , W.; Turner, S. The Sage Handbook of Social Science methodology. U.S.: Sage, 2007
POPPER, Karl. The logic of scientific discovery. London: Routledge, 2002.
RATCLIFFE, Jerry H. Evidence-based policing: The basics. Routledge, 2022.
ROBSON, C.. Real World Research: A Resource for Social Scientists and Practitioner-Researchers. U.S.: Wiley, 2002.
SELLTIZ, C. et al. Métodos de pesquisanas relações sociais. São Paulo: Heder, 1965.
THIOLLENT, M.. Metodologia de Pesquisa-ação. São Paulo: Saraiva, 2009.
ZIMAN, John. Real science: what it is, and what it means. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

