1 INTRODUÇÃO
O modelo de Policiamento Baseado em Evidências (PBE) foi proposto por Lawrence W. Sherman no artigo The Rise of Evidence-Based Policing: Targeting, Testing, and Tracking, publicado pela Universidade de Chicago em 2013. A proposta central do artigo é a incorporação de evidências científicas como base para a tomada de decisões no campo da segurança pública. Desenvolvido em um contexto acadêmico e prático, o modelo, conhecido como “3Ts” (Targeting, Testing e Tracking), busca transformar práticas policiais por meio do uso rigoroso de dados, análise empírica e tecnologia, promovendo maior eficiência e legitimidade das ações policiais.
O objetivo deste texto é explorar detalhadamente os fundamentos do modelo dos 3Ts, demonstrando como ele pode ser aplicado para melhorar a eficácia das intervenções policiais. Para isso, será apresentada uma análise de cada um dos pilares do modelo – direcionamento estratégico (Targeting), testagem de métodos (Testing) e rastreamento de ações (Tracking) –, evidenciando sua relevância para o contexto contemporâneo da segurança pública. Além disso, serão discutidos exemplos práticos e desafios associados à implementação do modelo, destacando a contribuição de Sherman para a modernização do policiamento.
A temática é particularmente relevante em um cenário global marcado por desafios crescentes na segurança pública, como o aumento da criminalidade em áreas urbanas e as demandas por maior transparência e accountability nas ações policiais. O PBE responde a essas questões ao propor uma abordagem sistemática que combina ciência, tecnologia e gestão estratégica para reduzir crimes e aumentar a confiança da população nas instituições policiais. Essa convergência de elementos fortalece o debate sobre a profissionalização do policiamento, aproximando-o de práticas adotadas em campos como a medicina baseada em evidências.
Outro aspecto que ressalta a importância do modelo é sua capacidade de equilibrar a eficiência operacional com a legitimidade policial, dois objetivos frequentemente considerados em tensão. Ao incorporar ferramentas como mapeamento de “hot spots” e experimentos controlados para testar a eficácia de intervenções, o modelo permite priorizar ações que efetivamente reduzem o dano à sociedade. Ademais, o rastreamento contínuo das operações policiais possibilita ajustes em tempo real, aumentando a capacidade adaptativa das instituições em contextos dinâmicos.
Portanto, o modelo dos 3Ts de Sherman representa uma transformação paradigmática no campo do policiamento, promovendo uma abordagem mais científica e orientada por resultados. Este texto não apenas descreve os princípios fundamentais do modelo, mas também busca destacar sua aplicabilidade e os impactos positivos que pode gerar na construção de um policiamento mais eficiente, ético e confiável.
3 O MODELO 3T
3.1 Targeting: direcionamento estratégico
O direcionamento estratégico, ou Targeting, é o primeiro pilar do modelo de Policiamento Baseado em Evidências (PBE) e estabelece a necessidade de priorizar recursos em áreas, pessoas ou situações que apresentam maior risco de criminalidade ou desordem. Conforme Sherman (2013), a aplicação desse princípio requer um entendimento profundo dos padrões criminais, que pode ser obtido por meio da análise sistemática de dados. Estudos sobre “hot spots” indicam que uma pequena fração dos locais em uma cidade frequentemente concentra a maior parte dos crimes, permitindo que as intervenções sejam focadas nesses pontos de maior impacto (Sherman, 2013).
Além da análise geográfica, o direcionamento pode ser aplicado no monitoramento de grupos de risco, como reincidentes ou indivíduos propensos a atos violentos. Pesquisas mostram que uma abordagem preventiva, orientada por dados, pode identificar comportamentos de alto risco antes que resultem em crimes graves. Essa metodologia também inclui o uso de ferramentas preditivas, como algoritmos de aprendizado de máquina, que auxiliam no ranqueamento de ameaças e na alocação de recursos com base em níveis calculados de probabilidade de reincidência ou perigosidade (Sherman, 2013).
O direcionamento estratégico vai além da simples identificação de locais problemáticos; ele demanda a priorização com base no conceito de “harm index”, que mede o impacto do crime na sociedade. Sherman (2013) argumenta que nem todos os crimes têm o mesmo peso para a comunidade, sendo essencial que as forças policiais concentrem seus esforços em áreas ou casos que causem maior dano social. Essa abordagem melhora a eficiência do policiamento ao reduzir desperdícios em ações que pouco contribuem para a segurança pública (Sherman, 2013).
Entretanto, implementar o direcionamento estratégico enfrenta desafios. Requer um corpo policial treinado para interpretar e aplicar dados analíticos, bem como tecnologias que garantam precisão nas informações. Apesar disso, experiências em cidades como Nova York e Londres mostram que estratégias focadas em “hot spots” podem reduzir substancialmente os índices de criminalidade, comprovando o potencial desse pilar do modelo PBE (Sherman, 2013).
3.2 Testing: Testagem de Métodos
A testagem, ou Testing, é o segundo pilar do modelo e se refere à aplicação de métodos científicos para avaliar a eficácia das práticas policiais. Essa abordagem visa garantir que as ações das forças de segurança sejam baseadas em evidências robustas, evitando desperdício de recursos e práticas que possam ter efeitos adversos. Sherman (2013) destaca que a testagem não apenas melhora a eficiência, mas também promove maior legitimidade das ações policiais perante a sociedade.
A implementação de experimentos controlados, como o realizado em Kansas City – Kansas City Preventive Patrol Experiment (1972), que desafiou a eficácia do patrulhamento ostensivo (Kelling, Pate, Dieckman, Brown, 1974), foi um marco inicial dessa abordagem. Nesse estudo, testou-se a eficácia do patrulhamento aleatório, demonstrando que ele não reduzia a criminalidade de forma significativa. Esse tipo de experimento pavimentou o caminho para a adoção de estratégias mais específicas e baseadas em evidências, como o policiamento em “hot spots”. Outros estudos, como os realizados em Minneapolis, confirmaram que o policiamento focado em áreas de alta criminalidade pode reduzir significativamente os índices de crimes e desordens.
Sherman (2013) aponta como pioneiros na análise do policiamento sob o ponto de vista científico, a partir de evidências:
[…] o Secretário do Interior do Reino Unido, R. A. B. Butler, que criou uma unidade de pesquisa em 1958; o futuro Diretor do FBI, Clarence Kelly, que apoiou o Experimento de Patrulhamento em Kansas City em 1971 (Kelling et al., 1974); o Chefe de Polícia de Minneapolis, Anthony V. Bouza, que apoiou a primeira designação aleatória de prisões em 1981 (Sherman e Berk, 1984); o criminologista David Weisburd e seus colegas (Weisburd et al., 2004, 2006; Weisburd, Groff e Yang, 2012), que analisaram carreiras criminais de locais em Seattle e Jersey City; o Comissário do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD), William Bratton, que criou o COMPSTAT na década de 1990; a Assistente do Procurador-Geral dos EUA, Laurie Robinson, que tornou evidências de testes policiais facilmente acessíveis em 2010 por meio do site crimesolutions.gov; e o Chefe de Polícia do Reino Unido, Peter Neyroud, que propôs o College of Policing baseado em evidências em 2011. O que esses líderes compartilhavam, incluindo, de forma notável, o Comissário do NYPD e Presidente da US Police Foundation, Patrick V. Murphy, era uma crença pouco articulada, mas profundamente enraizada, de que o uso ampliado da pesquisa poderia ajudar a transformar o policiamento em uma profissão mais legítima e respeitada.
Além de métodos de patrulhamento, a testagem também pode ser aplicada a outras práticas, como o uso de novas tecnologias e programas sociais voltados à redução de criminalidade. Por exemplo, avaliações sobre o uso de câmeras corporais demonstraram que elas podem aumentar a transparência e reduzir reclamações contra policiais, enquanto experimentos com programas de desvio para jovens infratores mostraram impacto positivo na redução da reincidência (Sherman, 2013).
Apesar dos avanços, a aplicação prática da testagem enfrenta resistência cultural e estrutural. Muitas organizações policiais hesitam em mudar práticas tradicionais ou em adotar métodos experimentais por temerem críticas ou fracassos iniciais. Superar esses desafios requer liderança comprometida, recursos financeiros e parcerias com instituições acadêmicas para desenvolver e avaliar intervenções inovadoras (Sherman, 2013).
3.3 Tracking: Rastreamento e Monitoramento
O rastreamento, ou Tracking, é o terceiro e último pilar do modelo dos 3Ts, voltado ao monitoramento contínuo das atividades policiais e seus resultados. Sherman (2013) argumenta que, para que uma estratégia seja eficaz, é essencial verificar se as ações planejadas estão sendo executadas conforme o esperado e se estão gerando os resultados desejados (Sherman, 2013).
Uma das ferramentas mais utilizadas nesse contexto é o COMPSTAT, um sistema de gestão desenvolvido na década de 1990 em Nova York. O COMPSTAT permite monitorar dados criminais em tempo real, facilitando ajustes rápidos nas estratégias de policiamento. Essa abordagem não só aumenta a eficiência operacional, mas também promove maior accountability entre os líderes policiais e suas equipes (Sherman, 2013).
Outro aspecto do rastreamento é o uso de tecnologias como GPS e câmeras corporais, que fornecem dados detalhados sobre as operações policiais. O GPS permite identificar deslocamentos e a presença de policiais em “hot spots”, enquanto as câmeras corporais registram interações com cidadãos, auxiliando na avaliação da conduta e no treinamento das equipes. Essas ferramentas não apenas aumentam a transparência, mas também contribuem para a redução de queixas e a melhora da percepção pública sobre a atuação policial (Sherman, 2013).
No entanto, o rastreamento enfrenta desafios relacionados ao custo de implementação e ao gerenciamento de grandes volumes de dados. Além disso, é necessário garantir que essas tecnologias sejam usadas de maneira ética, respeitando a privacidade dos cidadãos e os direitos humanos. A criação de políticas claras e o investimento em treinamento adequado são fundamentais para mitigar esses riscos e maximizar os benefícios do rastreamento (Sherman, 2013).
Por fim, o rastreamento também pode incluir a medição da percepção pública sobre a legitimidade policial, uma dimensão frequentemente negligenciada. Pesquisas anuais com a comunidade podem identificar áreas de desconfiança e fornecer subsídios para intervenções específicas, promovendo maior confiança entre a população e as forças de segurança (Sherman, 2013).
3 CONCLUSÃO
As conclusões do trabalho de Lawrence W. Sherman, The Rise of Evidence-Based Policing: Targeting, Testing, and Tracking (2013), apontam para o impacto transformador da adoção de práticas baseadas em evidências no policiamento.
A evolução do policiamento com base em evidências: o modelo dos 3Ts – Targeting, Testing e Tracking – trouxe um avanço significativo em relação às práticas tradicionais, como o patrulhamento aleatório e as investigações reativas. A adoção de práticas fundamentadas em dados e evidências científicas permitiu maior eficiência na alocação de recursos e no enfrentamento dos desafios contemporâneos da segurança pública.
Necessidade de uma cultura institucional de evidências: embora o uso de evidências tenha crescido desde 1975, Sherman aponta que ainda há uma lacuna entre o conhecimento produzido pela pesquisa e sua aplicação prática. Instituições policiais precisam adotar uma cultura que valorize a ciência como base para a tomada de decisões e a formulação de políticas.
Desafios para o policiamento orientado por evidências: apesar dos avanços tecnológicos e analíticos, muitos departamentos de polícia ainda enfrentam barreiras culturais, organizacionais e financeiras para implementar o modelo dos 3Ts. Esses desafios incluem a resistência a mudanças, a falta de recursos para conduzir experimentos e o treinamento inadequado para interpretar dados.
Impacto na eficiência e legitimidade policial: A adoção do policiamento baseado em evidências não só melhora a eficácia das intervenções, mas também fortalece a legitimidade policial. Práticas fundamentadas em evidências podem reduzir incidentes de uso excessivo da força, melhorar a percepção pública sobre a polícia e promover maior transparência.
Importância do investimento em pesquisa e tecnologia: Sherman ressalta que o progresso no policiamento orientado por evidências depende de investimentos contínuos em tecnologia, formação de lideranças e colaborações com instituições acadêmicas. A criação de órgãos como o College of Policing no Reino Unido é vista como um exemplo promissor para promover o uso de evidências no policiamento globalmente.
Em síntese, Sherman conclui que o modelo dos 3Ts representa um passo crucial na profissionalização do policiamento, mas seu pleno potencial só será alcançado com mudanças estruturais e culturais nas instituições policiais, além do compromisso com a ciência como base para a prática.
REFERÊNCIAS
SHERMAN, Lawrence. Repeat Calls to Police in Minneapolis. Crime Control Reports 4.
Washington, DC: Crime Control Institute, 1987.
SHERMAN, Lawrence W. The rise of evidence-based policing: Targeting, testing, and tracking. Crime and justice, v. 42, n. 1, p. 377-451, 2013.
KELLING, G. L.; PATE, A. M.; DIECKMAN, D.; BROWN, C. The Kansas City Preventive Patrol Experiment: Technical report. Washington, DC: Police Foundation, 1974.
