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1 INTRODUÇÃO

Grande parte das pesquisas realizadas no campo da geografia do crime e da criminologia ambiental tem centrado sua atenção na análise dos delitos e sua relação com os ambientes onde ocorrem. Apesar de reconhecer a relevância acadêmica e prática desses estudos, é igualmente essencial direcionar o foco para os responsáveis pelos fenômenos criminais, com o objetivo de compreender seus comportamentos no espaço. Essa abordagem contribui para o aprimoramento científico das metodologias investigativas.

O perfil geográfico (geographic profiling) é uma técnica que utiliza os locais associados a uma série de crimes interligados para identificar o ponto de ancoragem (anchor point) mais provável do infrator. Quando um indivíduo frequenta rotineiramente um determinado local, esse espaço pode se tornar um “ponto de ancoragem”, ao redor do qual outras atividades criminosas tendem a se concentrar (Brantingham; Brantingham, 1984). Para Rengert (1990), a residência é considerada o ponto de ancoragem principal na vida das pessoas.

Além dos pontos de ancoragem, destacam-se dois tipos especializados de nós que influenciam a formação do espaço de atividade e do espaço de consciência de um indivíduo: os atrativos de crimes (crime attractors) e os geradores de crimes (crime generators).

Os estudos sobre o perfil geográfico têm, predominantemente, explorado a precisão das diferentes abordagens disponíveis. Diversas pesquisas recentes analisaram e compararam distintos sistemas de perfil geográfico, levando em conta as metodologias e softwares empregados (Levine, 2002; Paulsen, 2006; Snook; Zito; Bennell, 2005).

Entretanto, essa ênfase na acurácia do perfil geográfico tem negligenciado algumas de suas limitações, como a dificuldade em categorizar o tipo de agressor. Nesse cenário, destaca-se a discussão sobre os perfis espaciais de commuters e marauders.

Os marauders realizam suas atividades criminosas em áreas próximas à sua base de operações, enquanto os commuters deslocam-se para locais mais distantes de seu ponto de ancoragem. Em termos práticos, os marauders atuam em suas próprias vizinhanças, ao passo que os commuters expandem sua atuação para além de sua zona habitual, buscando locais mais afastados para cometer seus crimes (Meaney, 2004).

 

2 COMMUTERS E MARAUDERS

 

O perfil geográfico se destaca como uma metodologia inserida nos estudos comportamentais de criminosos, com ênfase no espaço, abrangendo também análises sobre jornada para o crime, espaços de consciência e mapas mentais. Essa abordagem permite explorar como as pessoas interagem com seus arredores, evidenciando que locais conhecidos exercem influência significativa sobre as escolhas relacionadas a onde realizar atividades. Brantingham e Brantingham (1981) apontam que essa familiaridade está fortemente associada aos principais locais de atividades rotineiras, como residência, trabalho, lazer e as rotas percorridas entre esses pontos.

Rhodes e Conly (1981) traçaram um paralelo entre os deslocamentos de criminosos e viagens convencionais, como o trajeto de uma pessoa ao trabalho. As análises indicaram que, mesmo com ajustes matemáticos, os padrões de deslocamento de passageiros comuns poderiam ser aplicados a deslocamentos de criminosos. O modelo proposto por Canter (1977) atribui maior relevância às representações internas do indivíduo, destacando que o local de residência é frequentemente o núcleo da representação cognitiva dos espaços conhecidos (Canter; Youngs, 2008).

Esse conceito, denominado “dominocentrismo” (domocentricity), é sustentado pela constatação de que, em muitos casos, a base residencial do infrator está dentro da área geográfica de suas atividades criminosas. Canter e Gregory (1994) sugeriram um método simples para delimitar a área de atuação do criminoso, ligando os dois pontos de crime mais distantes para formar o diâmetro de um círculo, no qual a residência do infrator geralmente está localizada. Essa técnica, amplamente adotada, busca identificar de forma eficiente a área de interesse para investigações.

A hipótese de “dominocentrismo” tornou-se central para sistemas de criação de perfis geográficos, sustentando a maioria das ferramentas de apoio à decisão nesse campo. Contudo, pesquisas especulativas sobre o tema diminuíram em frequência e raramente foram aplicadas diretamente em investigações práticas. Um desafio emergente é distinguir entre infratores do tipo commuter e marauder em relação às suas atividades espaciais.

Os commuters deslocam-se para áreas distantes de sua base residencial para cometer crimes, enquanto os marauders operam predominantemente em sua vizinhança. Essa distinção foi explorada por Warren et al. (1998), que descobriram que estupradores em série classificados como commuters percorriam, em média, 4,03 milhas de sua residência, enquanto os marauders limitavam-se a uma distância média de 2,36 milhas. Canter e Youngs (2008) explicam que os commuters tendem a concentrar suas atividades em uma área específica, ao contrário dos marauders, que geralmente espalham seus delitos em torno de sua base.

No esquema de classificação proposto por Canter e Larkin (1993), a relação espacial entre os locais de crime e os pontos de ancoragem define os infratores como commuters ou marauders. Esse modelo estabelece que a base residencial desempenha um papel determinante na escolha dos locais de crime. Para os marauders, o espaço de ação está próximo à sua base, enquanto os commuters atuam em regiões distantes, frequentemente motivados por fatores como escassez de alvos próximos ou descoberta de oportunidades durante atividades cotidianas (Canter; Larkin, 1993).

A “Teoria do Círculo” (Circle Theory), proposta por Canter (1994) e Canter e Larkin (1993), fundamenta-se na existência de uma base fixa a partir da qual o infrator se desloca para cometer crimes em uma área delimitada. A distância máxima que o infrator está disposto a percorrer define seu “alcance criminal” (criminal range), e o comportamento espacial pode ser representado por um círculo, cujo raio reflete a distância entre a base do infrator e o local mais distante de seus crimes. Essa concepção simplificada facilita a aplicação prática em investigações criminais.

Figura 1 – Modelo para Commuter conforme “The Circle Theory” proposta por Canter e Larkin (1993).

Fonte: Meaney (2004, p. 123).

            Já o modelo do marauder, baseado na hipótese de Canter e Larkin (1993) e nas propostas de Brantingham e Brantingham (1981), prevê que o ofensor se mova a partir da sua base em direções múltiplas, destacando-se a importância da proximidade da sua casa.

Figura 2 – Modelo para Marauder conforme “The Circle Theory” proposta por Canter e Larkin (1993)

Fonte: Meaney (2004, p. 124).

Meaney (2004) apresentou evidências que sustentam a hipótese de que assaltantes em série são mais inclinados a adotar um padrão comportamental espacial do tipo commuter. Essa tendência sugere a existência de uma região geográfica distinta da base residencial dos infratores, onde uma parcela significativa localiza suas vítimas. Tal fenômeno pode ser explicado por diversos fatores, considerando que o assalto em série está mais frequentemente relacionado a aspectos sociais, ambientais ou situacionais, em oposição a características psicopatológicas individuais, que são mais prevalentes em crimes como incêndios criminosos em série ou delitos sexuais (MEANEY, 2004).

Kocsis e Irwin (1997) conduziram uma análise empírica da Teoria do Círculo, investigando o comportamento espacial de estupradores em série, incendiários e assaltantes. O estudo enfatizou a classificação entre os estilos espaciais commuter e marauder, conforme descrito por Canter e Larkin (1993). Os resultados indicaram que o estilo de ofensa adotado varia de acordo com o tipo de crime. Observou-se que o padrão marauder era predominante em casos de estupro e incêndio criminoso em série, enquanto, nos assaltos em série, ambos os padrões (commuter e marauder) apresentaram probabilidades similares.

Essa inclinação pelo padrão marauder em crimes como agressão sexual e incêndio pode ser atribuída à motivação baseada na violência interpessoal, para a qual há uma ampla disponibilidade de oportunidades em locais próximos. Assim, a adoção desse estilo reflete a ausência de necessidade de deslocamento significativo por parte desses infratores.

Pesquisas adicionais sobre as distâncias percorridas por criminosos corroboram a variação nos tipos de infratores em função do crime cometido. Por exemplo, estudos apontam que 51% dos estupradores em série nos Estados Unidos seguem o padrão marauder (Warren; Reboussin; Hazelwood, 1995), percentual semelhante ao de 43% nos casos de agressões sexuais a estrangeiros na Colúmbia Britânica (Alston, 1994 apud Paulsen, 2007). Outros exemplos incluem 49% dos incendiários urbanos em série no Japão (Tamura; Suzuki, 2000), 63% dos assaltantes comerciais em Helsinque, Finlândia (Laukkanen; Santtila, 2006), e 52% dos assaltantes na Austrália (Kocsis; IRWIN, 1997).

3 APLICAÇÃO PRÁTICA: ANÁLISE EM BELO HORIZONTE

A pesquisa sobre os padrões espaciais de criminosos em série em Belo Horizonte de Faria, Diniz e Alves (2022) intitulada COMMUTERS e MARAUDERS: tipologia de criminosos em série a partir de padrões de deslocamento para cometimento de delitos trouxe à luz importantes características relacionadas ao comportamento criminal e à dinâmica espacial de suas ações. Com base em boletins de ocorrência registrados entre 2011 e 2013, os autores analisaram casos de criminosos em série com pelo menos quatro eventos no período, utilizando a metodologia proposta por Canter e Larkin (1993). Os infratores foram classificados como marauders, que operam em áreas próximas às suas residências, ou commuters, que cometem crimes em locais distantes de sua base. Um grupo adicional, denominado transitório, foi identificado devido à multiplicidade de endereços residenciais registrados.

Os resultados revelaram que 24% dos infratores foram classificados como marauders, enquanto 28% foram identificados como commuters. O grupo transitório representou 48% do total, caracterizado pela ausência de um padrão espacial único devido às múltiplas bases residenciais. Para os marauders, observou-se maior envolvimento em crimes que remetem à territorialidade, como o tráfico de drogas e a posse de armas, evidenciando a relevância do domínio territorial em suas ações. Já os commuters concentraram suas atividades em regiões como o hipercentro de Belo Horizonte, atraídos por uma maior densidade de potenciais vítimas e menor vigilância, com predominância de crimes contra o patrimônio (70%).

A análise espacial indicou que os crimes dos commuters apresentaram maior concentração em áreas específicas, enquanto os marauders mostraram maior dispersão de eventos. Essa constatação reforça as teorias de Canter e Youngs (2008), que sugerem que infratores que percorrem distâncias maiores tendem a focar suas atividades em uma área delimitada. Contudo, não foi identificada a progressão de alcance criminal ao longo das séries de eventos, desafiando as previsões de Meaney (2004).

As conclusões desta pesquisa destacam que os comportamentos espaciais de criminosos em série são diversos e influenciados por fatores contextuais e tipologias criminais. Embora a classificação em marauders e commuters tenha se mostrado útil, o estudo evidencia a necessidade de investigações futuras que explorem com mais profundidade as relações entre crimes específicos e comportamentos espaciais.

4 CONCLUSÕES

A identificação dos padrões espaciais de criminosos, especialmente a distinção entre commuters e marauders, é de suma importância para a criminologia e para a segurança pública. Essa análise permite compreender como os infratores utilizam o espaço geográfico para planejar e executar suas ações, fornecendo subsídios para o desenvolvimento de estratégias investigativas e preventivas mais eficazes.

No caso dos commuters, que se deslocam para áreas distantes de sua base, a análise espacial pode indicar regiões de maior vulnerabilidade, como áreas comerciais e polos urbanos, onde há concentração de potenciais vítimas e menor vigilância. Já os marauders, que operam próximos de suas residências, revelam padrões de territorialidade, frequentemente associados a crimes como tráfico de drogas e posse de armas. Entender essas dinâmicas possibilita intervenções direcionadas em zonas de maior risco, além de melhorar a alocação de recursos policiais.

Ademais, o estudo dos padrões espaciais contribui para a criação de perfis criminais mais precisos, auxiliando na identificação de criminosos em série e no planejamento de ações específicas para interromper suas atividades. No campo da investigação, essas informações são fundamentais para delimitar áreas de busca e prever comportamentos futuros dos infratores, otimizando o tempo e a eficiência das operações. 

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FARIA, Antônio Hot Pereira de; DINIZ, Alexandre Magno Alves; ALVES, Diego Filipe Cordeiro. COMMUTERS e MARAUDERS: tipologia de criminosos em série a partir de padrões de deslocamento para cometimento de delitos. Confins. Revue franco-brésilienne de géographie/Revista franco-brasilera de geografia, n. 55, 2022.

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    Como citar este texto

    FARIA. Antônio Hot Pereira de. Commuters e Marauders: Comportamento espacial de criminosos. CJPol, Brasília/DF. Disponível em: <https://cjpol.com.br/seguranca_publica/commuters-e-marauders-comportamento-espacial-de-criminosos/>. Acesso em: 21/10/2026.