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O objetivo deste artigo é fazer uma revisão sobre as principais fontes de dados utilizadas para análise criminal.

A compreensão da análise criminal perpassa pela compreensão de como os dados são coletados, para tanto, começaremos abordando a questão dos tipos de dados (quantitativos e qualitativos), bem como as fontes de dados (primárias ou secundárias). Posteriormente, buscamos indicar as principais bases de dados utilizadas para análise criminal.

1.1 Uma visão geral sobre as fontes de dados

Para realização da análise criminal são utilizados dados qualitativos e quantitativos.

1.1.1 Dados qualitativos e sua análise

De maneira geral, os dados qualitativos são não numéricos e são coletados como narrativas, comentários em uma chamada de emergência, históricos de boletins de ocorrência, oitivas em processos e procedimentos administrativos ou judiciais. A análise qualitativa é realizada por meio da técnica de análise de conteúdo.

A análise de conteúdo é conceituada por Bardin (1977) como

[…] um conjunto de técnicas de análise das comunicações, visando, por procedimentos objetivos e sistemáticos de descrição do conteúdo das mensagens obter, indicadores quantitativos ou não, que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.

Trata-se de “uma técnica de investigação que, através de uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações, tem por finalidade a interpretação destas mesmas comunicações” (BERELSON, 1952). A aplicação em âmbito da análise criminal se dá com emprego da leitura ou utilização de softwares de análise de conteúdo das informações contidas nas fontes de dados (Boletins de Ocorrências, relatório do sistema de Controle de Atendimento e Despacho etc.) com a busca de padrões ou temas específicos, a fim de organizá-los e sistematiza-los.

Outra ferramenta de análise qualitativa é a análise de redes sociais, por meio da qual é possível que se busque a identificação de relacionamentos e vínculos entre pessoas envolvidas com o crime (autores, coautores e partícipes em crimes, membros de organização criminosa, pessoas que possam ser colaboradores com redes criminosas, relacionamentos entre vítima e autor etc.).

A análise qualitativa é amplamente utilizada na análise de inteligência criminal e na análise tática.

1.1.2 Dados quantitativos e sua análise

Os dados quantitativos são dados numéricos ou categóricos coletados como valores de variáveis discretas (número de crimes, data do evento, código numérico do boletim de ocorrência, horário do fato, número de vítimas etc.). Os dados quantitativos normalmente são tratados estatisticamente com finalidade de busca por padrões ou tendências nos fenômenos estudados, para tanto são organizados em bancos de dados que permitem cruzamentos de dados e investigações de correlações.

A análise quantitativa é utilizada com frequência na análise estratégica e administrativa que, via de regra, abrangem conjuntos robustos de dados e longas séries temporais.

1.2 Fontes dos dados: primária ou secundária

Os dados sejam quantitativos ou qualitativos são obtidos de fontes primárias e secundárias. Os dados primários são dados originais coletados diretamente pelo pesquisador/analista, para responder a uma questão específica. Geralmente é coletado por meio de entrevistas, questionários, formulários, grupos focais ou por meio de pesquisa observacional. Já os dados secundários são colhidos para outros fins e compõem bancos de dados (ocorrências policiais, Controle de Atendimento e Despacho, Acidentes de Veículos, dados cadastrais de registros de veículos, registros prisionais, circulação de veículos, dados de órgãos de receita, cadastros de imóveis etc.) e que são reexaminados pelo analista/pesquisador.

Os dados secundários são utilizados muito frequentemente, notadamente para análise tática, entretanto os dados primários normalmente são usados para solução de problemas específicos e que demandam maior profundidade na análise.

1.2 Sistemas de dados

Agências e departamentos policiais normalmente possuem dois tipos de sistemas de dados: um que corresponde aos registros de fatos policiais (ocorrências, ações e operações) e outro de demandas policiais (sistema de controle de atendimento e despacho). Apesar da multiplicidade de estruturas organizacionais e modelos de gestão de dados, as funções básicas e propostas são basicamente comuns entre cada uma das polícias e que trataremos aqui de maneira genérica.

1.2.1 Sistema de Controle de Atendimento e Despacho (CAD)

O sistema de Controle de Atendimento e Despacho (CAD) também possui a mesma sigla para o caso utilizado nos países de língua inglesa como sendo um Sistema de Despacho Assistido por Computador – Computer-Aided Dispatch System (CAD). Esse tipo de sistema é uma tecnologia de telecomunicações e exibição geográfica para apoiar ações e operações de resposta de segurança pública. Os sistemas CAD normalmente são utilizados para todos os serviços de emergência (policiais, bombeiros e ambulância), incluindo o cadastramento e controle das ações e operações por demanda (chamadas) ou que sejam de iniciativa do policial.

As principais que compõem o banco de dados de atendimento e despacho são:

  1. identificador (ID) da chamada de emergência;
  2. data/hora da chamada;
  3. identificação do solicitante;
  4. local da chamada;
  5. natureza do fato;
  6. histórico do fato;
  7. contato telefônico do solicitante;
  8. unidade policial empenhada;
  9. horário do empenho;
  10. horário da chegada ao local do fato para atendimento;
  11. atualização do histórico;
  12. providências.
  13. horário de encerramento do atendimento.

1.2.2 Sistema de registro de ocorrências policiais

Um sistema de registro de ocorrências é uma tecnologia na qual as ocorrências policiais são armazenadas como banco de dados. Além das ocorrências policiais outros tipos de eventos são também registrados e ficam armazenados tais como boletins de fatos não criminais (assistências, abordagens, reuniões comunitárias, visitas pós-atendimento ou a vítimas de crimes, protocolos de segunda intervenção em casos de violência doméstica, etc.), bem como relatórios de atividade (relatórios de operações realizadas contendo dados da operação, data/hora, localização, produtividade, resultados etc.).

Além dos campos parametrizados que permitem a estruturação automatizada dos dados das básicos das ocorrências, também compõem os registros o histórico das ocorrências, que podem ser alvos de análise qualitativa.

Um importante aspecto dos bancos de dados de registros de ocorrências, refere-se à qualidade dos dados (aspectos de precisão, confiabilidade e completude), em especial, quanto a campos de preenchimento não obrigatório ou que possuam opção de preenchimentos como “outros”, “ignorado”, “desconhecido” etc. Esses campos comprometem sobremaneira a qualidade da análise já que podem ensejar a sua remoção na fase de FILTRAGEM, o que determina a perda de muitas informações.

Por exemplo, numa análise dos homicídios tentados e consumados em Minas Gerais para o ano de 2022, o banco de dados de ocorrências apresentava 32% do total de registros como “OUTROS”, “IGNORADO” e “NÃO INFORMADO” para o campo de causa presumida dos crimes. Ou seja, para uma busca de padrões de crime para definição de estratégias preventivas e repressivas para este tipo de delito, deve-se desconsiderar praticamente um terço de todas as ocorrências, o que representa um grande prejuízo.

1.2.3 Sistema de registro de prisões

Um sistema de registro de prisões é uma tecnologia que armazena as informações dos indivíduos ingressos no sistema penal. Os dados de presos/acautelados permitem analisar reincidência penitenciária, carreira criminal, as naturezas criminais mais presentes, vinculações entre indivíduos encarcerados, além de possuírem, via de regra, informações úteis para a análise de inteligência criminal (como pessoas que visitam os presos por exemplo, o que pode fornecer insights sobre vínculos), além de informações fidedignas sobre a residência informada pelo detento (já que são importantes fontes para contatos de emergência). Desta forma, os sistemas de registros de presos fornecem informações preciosas para a análise de inteligência criminal, principalmente.

1.2.4 Bancos de mandados de prisão

Bancos de dados de mandados de prisão fornecem informações importantes para subsidiar ações policiais, ou complementar os planejamentos operacionais. Também figuram como importantes ferramentas para análise de inteligência criminal.

1.2.5 Outras bases de dados

De maneira adicional há diversas outras fontes de dados que podem ser utilizadas para análise criminal. Apresenta-se de maneira exemplificativa algumas dessas fontes:

  1. bancos de dados pessoais: podem ser obtidos de diversas fontes, tais como dados de registros civis, fiscais, componentes de grupos organizados (torcidas, movimentos sociais), trabalhistas, sistemas de saúde etc.;
  2. bancos de dados de propriedade: registros de imóveis, bancários, penhores, etc.;
  3. bancos de dados de veículos: registros de propriedade de veículos, endereços de registro, locações de veículos etc.;
  4. mídias sociais: referem-se a formas de comunicação por meios virtuais por meio de redes e comunidades, nas quais os usuários compartilham informações pessoais, fotos, relacionamentos com outros indivíduos, padrões de comportamento, localização e ideias;
  5. fontes abertas: referem-se a informações não classificadas, constantes em arquivos públicos. Informações de fontes abertas incluem as disponíveis em mídias sociais, dados e relatórios governamentais, literatura acadêmica, publicidade, imprensa;
  6. dados geográficos: agências de todos os níveis utilizam-se de sistemas de dados geográficos tais como divisões territoriais administrativas (limites de municípios, setores censitários, bairros etc.), uso do solo, ruas, avenidas, praças, prédios públicos e privados, fotografias aéreas e de satélite, além de dados demográficos para inúmeras aplicações possíveis para análise criminal nas suas diversas modalidades, em especial, para investigar correlações entre os fatos criminais e o ambiente onde ocorreram.
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    Como citar este texto

    FOUREAUX, Rodrigo. Dados policiais e recursos de análise de dados. CJPol, Brasília/DF. Disponível em: <https://cjpol.com.br/seguranca_publica/dados-policiais-e-recursos-de-analise-de-dados/>. Acesso em: 21/10/2026.