Modelos de Polícia: República da África do Sul

Serviço de Polícia da África do Sul (South African Police Service) SÉRGIO CARRERA NETO “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”. Nelson Mandela A República da África do Sul é um país localizado no extremo sul do continente africano e faz fronteira com a Namíbia, Botsuana, Zimbábue, Moçambique, Reino de Essuatíni (antigo Reino da Suazilândia) e Reino de Lesoto, uma pequena nação que está inserida no território da África do Sul. O país tem uma grande diversidade étnica, contando com 11 idiomas oficiais, como o inglês e o afrikanse, além de uma ampla biodiversidade. Desde 1994, quando definitivamente encerrou-se o período do Apartheid — regime de segregação racial, com a eleição Nelson Mandela, o primeiro presidente negro da história do país, efetivou-se como uma democracia constitucional, refletida como uma República Parlamentarista Unitária, ou seja, com um partido político dominante, o Congresso Nacional Africano – CNA. A África do Sul possui uma população aproximada de 58 milhões de habitantes e é considerada um mercado emergente pelo Banco Mundial, sendo o segundo maior do continente, atrás da Nigéria. O Serviço de Polícia da África do Sul (South African Police Service – SAPS) é a […]

Commuters e Marauders: Comportamento espacial de criminosos

1 INTRODUÇÃO Grande parte das pesquisas realizadas no campo da geografia do crime e da criminologia ambiental tem centrado sua atenção na análise dos delitos e sua relação com os ambientes onde ocorrem. Apesar de reconhecer a relevância acadêmica e prática desses estudos, é igualmente essencial direcionar o foco para os responsáveis pelos fenômenos criminais, com o objetivo de compreender seus comportamentos no espaço. Essa abordagem contribui para o aprimoramento científico das metodologias investigativas. O perfil geográfico (geographic profiling) é uma técnica que utiliza os locais associados a uma série de crimes interligados para identificar o ponto de ancoragem (anchor point) mais provável do infrator. Quando um indivíduo frequenta rotineiramente um determinado local, esse espaço pode se tornar um “ponto de ancoragem”, ao redor do qual outras atividades criminosas tendem a se concentrar (Brantingham; Brantingham, 1984). Para Rengert (1990), a residência é considerada o ponto de ancoragem principal na vida das pessoas. Além dos pontos de ancoragem, destacam-se dois tipos especializados de nós que influenciam a formação do espaço de atividade e do espaço de consciência de um indivíduo: os atrativos de crimes (crime attractors) e os geradores de crimes (crime generators). Os estudos sobre o perfil geográfico têm, predominantemente, […]

Técnicas de desescalonamento do uso de força a partir da Teoria de Posicionamento e equipes de intervenção em crise

1 INTRODUÇÃO O debate sobre o uso excessivo da força por policiais é uma questão central nos Estados Unidos, destacando a necessidade de estratégias mais eficazes para prevenção e mitigação desses incidentes. A morte de um adolescente desarmado em Ferguson, Missouri, em 2014, exemplifica como eventos específicos podem impulsionar mudanças sistêmicas e demandar inovações nas práticas policiais (Police Executive Police Forum, 2015). Entre as medidas propostas, destaca-se o uso de câmeras corporais, um avanço que, embora relevante para a documentação de ocorrências, não aborda diretamente a prevenção do uso inadequado da força. Além disso, iniciativas como a responsabilização criminal de agentes são, em essência, reativas, focadas em punir atos já consumados (Police Executive Police Forum, 2015). Portanto, pesquisas que investiguem metodologias preventivas, como treinamentos e abordagens fundamentadas em teorias psicológicas e sociais, são indispensáveis. Neste contexto, o treinamento policial surge como um fator crítico. Estudos mostram que novos recrutas recebem treinamento significativamente desequilibrado, com um número médio de 129 horas dedicado a técnicas de uso da força contra apenas 16 horas para práticas de desescalada (Police Executive Police Forum, 2015). A implicação é clara: os policiais são condicionados a reagir instintivamente com força, muitas vezes negligenciando alternativas menos coercitivas. 2 […]

Lei de concentração do crime

1 INTRODUÇÃO   O crime não se distribui de forma aleatória no espaço. Pequenas áreas de um território específico concentram uma proporção significativa de eventos criminais (Sherman; Gartin; Buerger, 1989a; Sherman, 1995; Weisburd et al., 2004a). Uma das principais constatações empíricas da chamada “criminologia do lugar” (criminology of place) é que o crime está concentrado em unidades geográficas muito reduzidas (Weisburd; Amram, 2014; Weisburd, 2015, 2004; Weisburd; Groff; Yang, 2012). Além disso, os microespaços representam o nível mais adequado de análise espacial do crime. O geógrafo Keith D. Harries (1974) observa que as infrações possuem suas próprias “ecologias de lugar”, sendo influenciadas pelo layout, pelas características estruturais e pelo design do bairro, que podem moldar as oportunidades para determinados crimes. Conforme Harries, “a discussão de fatores microambientais demonstra que os delitos variam muito em sua capacidade de controle por meio da manipulação do ambiente físico” (Harries, 1974, p. 78). Stucky e Ottensmann (2009) revisaram a relação entre uso e ocupação do solo e o crime no âmbito da criminologia. Seus estudos abrangem desde as análises da Escola de Chicago (Burgess, 1916; Shaw; McKay, 1942), passando pelas discussões sobre paisagens urbanas e criminalidade (Jacobs, 1961; Newman, 1971), até as teorias das […]

A arquitetura urbana influencia a distribuição dos crimes?

1 Introdução Na década de 1970 há um marco conceitual no pensamento sobre a etiologia do comportamento criminoso a partir da publicação das obras Defensible Space deOscar Newman e Crime Prevention Throught Environmental Design de Clarence Ray Jeffery. Estas obras influenciaram acadêmicos, agências governamentais, o desenho arquitetônico e iniciativas públicas e privadas de prevenção criminal (Faria, 2023). O Espaço Defensivo ou Espaço Defensável (defensible space) foi um conceito criado porNewman (1972) e introduzido em DefensibleSpace: People and Design in the Violent City. Otermo é usado para descrever o desenho de umambiente residencial projetado para permitir eaté mesmo incentivar os próprios residentes asupervisionar e serem vistos por pessoas defora (não residentes) como responsáveis porseus bairros (Mayhew, 1981; Faria, 2023). A ideia de espaço defensivo relaciona-se a soluções arquitetônicas de recuperação de moradias públicas nos Estados Unidos, obrigando seus moradores a exercer seus naturais instintos de “territorialidade”. Este instinto é perdido quando se constroem grandes prédios de habitação coletiva, em que os moradores mal se conhecem, e onde existe uma variedade enorme de acessos não supervisionados que facilitam a atividade depredadores. A ideia é reduzir esse anonimato não apenas pelo incremento da vigilância natural, mas também diminuindo as vias de escape para […]

Programas de Educação focados na resistência ao abuso de drogas são capazes de reduzir o uso de drogas por crianças e adolescentes?

1 Introdução O programa Drug Abuse Resistance Education (DARE) é uma iniciativa de prevenção de drogas amplamente implementada em escolas, com o objetivo de reduzir o uso de drogas entre adolescentes. No Brasil, o programa recebeu o nome de Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), sendo implementado pelas polícias militares.  Apesar de sua popularidade, a eficácia do programa DARE em atingir seu objetivo principal tem sido um assunto de extensa pesquisa e debate. Vários estudos demonstraram que o programa DARE tem impacto mínimo na redução do uso de drogas entre adolescentes. Os tamanhos de efeito para o comportamento de uso de drogas são geralmente pequenos e não estatisticamente significativos. Algumas melhorias de curto prazo nas atitudes dos alunos em relação às drogas, habilidades de resistência de colegas e conhecimento geral sobre abuso de substâncias foram observadas imediatamente após o programa DARE. No entanto, esses efeitos tendem a diminuir ao longo do tempo. Estudos longitudinais indicam que quaisquer efeitos positivos iniciais do programa DARE sobre o comportamento de uso de drogas, atitudes ou autoestima não persistem a longo prazo. Avaliações de acompanhamento até 10 anos após a intervenção não mostram diferenças significativas entre os participantes do DARE […]

Granularidade espacial na análise criminal: impactos da escolha de escalas na identificação de padrões criminais

1 Introdução As contagens de crimes são sensíveis à escolha da granularidade. Uma questão fundamental na análise de muitos processos espaciais é a escolha de uma escala apropriada para a análise. Unidades geográficas menores são geralmente preferíveis para o estudo de fenômenos humanos porque são menos propensas a causar a confusão de grupos heterogêneos. No entanto, pode ser mais difícil obter dados para unidades pequenas e problemas de números pequenos podem frustrar a análise quantitativa (Malleson; Steenbeek; Andresen, 2019). A granularidade espacial na análise de crimes se refere ao nível de detalhes em que os dados espaciais são divididos e analisados. É crucial para identificar padrões de crimes e hotspots, mas a escolha da granularidade pode impactar significativamente a precisão e utilidade da análise (Ramos et al., 2020). No mesmo sentido, Malleson et al. (2019) destacam que o tamanho da grade espacial impacta significativamente a análise da distribuição do crime, influenciando tanto a precisão das descobertas quanto a interpretação dos padrões subjacentes. Pesquisas indicam que unidades geográficas menores podem revelar padrões de crime mais matizados, mas também apresentam desafios como escassez de dados e problemas de pequeno número (Malleson et al., 2019). Grades menores (por exemplo, raster de 1000 m) […]

Análise dos conflitos interinstitucionais na segurança pública brasileira à luz da Ciência Política

1 Introdução O sistema de segurança pública brasileiro é composto por uma estrutura definida constitucionalmente que determina atribuições para diversas instituições com competências teoricamente bem delimitadas, mas que acabam por se sobrepor em alguma medida. As atividades de segurança são organizadas em Polícia Militar, responsável pelo policiamento ostensivo e preservação da ordem pública, Polícia Federal e Polícia Civil, responsáveis pela apuração em inquéritos e encaminhamento à justiça para o propositura da ação penal, pela Polícia Penal, que faz a segurança nos estabelecimentos prisionais, pela Polícia Rodoviária Federal, que faz o policiamento ostensivo nas rodovias, pelas guardas municipais, que realizam atividades de segurança entre as instalações e pessoas relacionadas ao município. Ocorre que, hoje, existe uma grande tensão nesse modelo, em que a Polícia Militar, além de executar as atividades de polícia de ordem, que lhe é própria, também pleiteia parte das atividades de polícia criminal, as quais seriam de atribuição originária da Polícia Civil, por exemplo, elaborando Termos Circunstanciados de Ocorrência e apuração sumária de alguns crimes com elaboração de relatório técnicos de inteligência, que, além de permitir uma elaboração de planejamento para atividades de prevenção criminal, acaba por investigar os crimes, em algum nível. As guardas municipais, por sua […]

Teorias Marxistas e Radicais

Resumo: O texto aborda as teorias marxistas e radicais no contexto da criminologia, especialmente focando na relação entre o capitalismo e o sistema de justiça criminal. O marxismo é apresentado como uma perspectiva crítica que vê o direito e a justiça criminal como ferramentas da elite capitalista para manter o controle e perpetuar sua posição de poder. As teorias discutem como o sistema capitalista é inerentemente criminógeno, gerando tanto as leis quanto o comportamento criminoso. O texto também explora críticas às teorias marxistas, destacando a dificuldade de testá-las empiricamente e a necessidade de comparações diretas entre sociedades capitalistas e socialistas. Além disso, aborda diferentes vertentes da criminologia crítica, como o realismo de esquerda e a criminologia de pacificação, que propõem abordagens alternativas e críticas ao sistema de justiça criminal tradicional. Palavras-chave: Teorias criminológicas marxistas; criminologia crítica; criminologia radical.   Introdução   Na década de 1960, as teorias do conflito e da rotulagem emergiram como influentes na sociologia e na criminologia. No entanto, durante a década de 1970, alguns teóricos do conflito nos Estados Unidos começaram a mudar suas perspectivas, adotando uma abordagem marxista e abandonando suas concepções anteriores sobre o conflito (Akers, 2012, p. 163). Em meados dos anos 1970, […]

As Teorias Feministas na Criminologia: uma análise contextual e bibliográfica

Resumo   A criminologia feminista surgiu nos anos 1960 e 1970 como uma resposta às limitações das teorias criminológicas tradicionais, que frequentemente ignoravam as experiências e perspectivas das mulheres. As diferentes vertentes feministas – liberal, radical, marxista/socialista, pós-moderna e crítica de raça – contribuíram para uma análise mais abrangente e inclusiva da criminologia. O feminismo liberal focou na igualdade de oportunidades e criticou as práticas discriminatórias, enquanto o feminismo radical abordou a opressão patriarcal como raiz da violência contra as mulheres. O feminismo marxista/socialista integrou análises de classe, raça e gênero, e o feminismo pós-moderno e crítico de raça destacaram a importância da interseccionalidade. Outras abordagens, como o ecofeminismo, feminismo cultural e criminologia queer, ampliaram ainda mais a compreensão das dinâmicas de gênero no contexto criminal. Palavras-chave: Criminologia feminista; criminologia queer; criminologia marxista; feminimo; criminologia radical.   1 Introdução   A criminologia feminista surgiu como uma resposta crítica às limitações das abordagens tradicionais na criminologia, que historicamente negligenciaram as experiências e perspectivas das mulheres. No contexto da criminologia convencional, teorias como a positivista, a clássica e a sociológica, entre outras, focaram predominantemente em explicações universais para o comportamento criminoso, frequentemente baseadas em estudos realizados majoritariamente com homens. Essas abordagens tendiam […]

Vitimologia: histórico evolutivo e tipologias de vítimas

Resumo:   A vitimologia, um campo emergente dentro da criminologia, estuda as vítimas de crimes, seus papéis e o impacto que sofrem. Historicamente, a vítima foi negligenciada tanto pelo sistema jurídico quanto pelas políticas criminais, que focaram predominantemente no infrator. Com o desenvolvimento das ciências sociais e criminológicas, a percepção da vítima mudou, reconhecendo-se sua importância na compreensão do fenômeno criminal. Este texto analisa a evolução histórica do papel da vítima, destacando três momentos principais: a idade de ouro, a neutralização do poder da vítima e sua revalorização. Além disso, são apresentadas tipologias de vítimas desenvolvidas por estudiosos como Benjamin Mendelsohn, Hans von Hentig e Stephen Schafer. Palavras-chave: Vitimologia. Criminologia. Tipologia de Vítimas.   1 Introdução   A vitimologia é a investigação científica sobre questões relacionadas com as vítimas, tais como o que torna as pessoas vulneráveis ​​a tornarem-se vítimas e como as vidas das pessoas são afetadas quando são perpetrados crimes contra elas ou contra os seus bens. Inclui também o estudo dos perpetradores e infratores e da sua relação com as vítimas dos crimes que cometem. A vitimologia atrai uma ampla gama de teorias de múltiplas disciplinas, incluindo sociologia, psicologia, justiça criminal, direito e defesa de direitos (Dillenburger, […]

Teorias do Conflito

Resumo: A teoria do conflito propõe que a sociedade é sustentada não por consenso, mas por uma constante dinâmica de interesses opostos entre grupos. Esse conflito contínuo oferece uma oportunidade para mudanças de posição e a necessidade de defesa ativa de interesses. O poder é visto como o principal determinante dos resultados desse conflito, com os grupos mais poderosos moldando a lei para refletir seus valores. Isso resulta em uma explicação para a lei, a justiça criminal, e o comportamento desviante, onde a criminalidade é uma manifestação dos conflitos entre grupos de interesse. O controle social é dividido em formal e informal, sendo que a lei, como forma de controle formal, é apoiada pela coerção do Estado. Existem duas principais perspectivas sobre a lei: a teoria do consenso, que vê a lei como reflexo dos interesses comuns da sociedade, e a teoria do conflito, que a considera um produto do conflito entre grupos. A teoria do consenso, defendida por teóricos como Durkheim e Weber, enfatiza o desenvolvimento da lei a partir de um consenso normativo, enquanto a teoria do conflito, avançada por autores como Vold, Quinney e Chambliss, argumenta que a lei serve aos interesses dos grupos mais poderosos. Palavras-chave: […]

Escola de Chicago

1 INTRODUÇÃO   A Escola de Chicago da Ecologia Humana e a Escola de Chicago de Criminologia criada no início da década de 1920 é considerada o berço da moderna sociologia americana. É caracterizada pelo empirismo, por sua finalidade pragmática (emprego da observação direta nas investigações; as teses são introduzidas a partir da observação dos fatos) e pela finalidade prática a que se orientavam: um diagnóstico sobre os problemas sociais urgentes da realidade norte-americana. A Escola de Chicago teve como sua temática predominante a sociologia da grande cidade, a análise do desenvolvimento urbano, da civilização industrial e, relacionado a estes, a morfologia da criminalidade neste novo meio (MOLINA; GOMES, 2006). Atenta ao impacto da mudança social, especialmente evidente nas grandes cidades norte-americanas (industrialização, migrações, conflitos culturais, etc.) e interessada pelos grupos minoritários, conflitivos, a Escola de Chicago soube aprofundar-se no coração da grande urbe, conhecer e compreender internamente o mundo dos desviados, suas formas de vida e cosmovisões, analisando os mecanismos de aprendizagem e transmissão das referidas culturas desviadas. O exame inicial foi um tanto primitivo, desprovido de esquemas teóricos claros, mas estes perfilaram-se posteriormente (teoria ecológica, subcultural, “anomia”, conflitual, da aprendizagem, “definitorial”, etc.) (MOLINA; GOMES, 2006).   2 PRECEDENTES […]

Subcultura Delinquente: perspectivas teóricas e aplicações

Resumo:   Este artigo explora a teoria da subcultura delinquente, desenvolvida por Albert Cohen, e sua evolução através das contribuições de outros teóricos como Cloward e Ohlin, Matza e Sykes, e Anderson. A teoria aborda como jovens de classes socioeconômicas mais baixas desenvolvem normas e valores alternativos em resposta à frustração de status. São discutidas as influências da associação diferencial, ecologia urbana e teorias psicossociais. Além disso, são examinadas as críticas às teorias subculturais, destacando a necessidade de considerar fatores estruturais e individuais no comportamento delinquente. Palavras-chave: Subcultura delinquente; frustração de status; delinquência juvenil; criminologia; teoria da neutralização; oportunidade diferencial.   1 Introdução   As teorias subculturais da delinquência surgem para explicar comportamentos criminais dentro de subgrupos específicos na sociedade. Estas teorias, desenvolvidas a partir da década de 1950, propõem que subculturas delinquentes emergem como respostas a problemas específicos enfrentados por indivíduos de classes sociais mais baixas, especialmente jovens do sexo masculino. Estas subculturas oferecem normas e valores alternativos que divergem das normas da cultura dominante. Uma subcultura é uma subdivisão dentro da cultura dominante que possui suas próprias normas, crenças e valores. As subculturas normalmente surgem quando pessoas em circunstâncias semelhantes se encontram isoladas da corrente principal e se […]

Dissuasão, deslocamento do infrator e a redução criminal

1 Introdução   O estudo do deslocamento do crime tem sido um tema recorrente e de grande relevância nas ciências criminais e na criminologia. A premissa de que o crime pode ser simplesmente transferido de uma localidade para outra, sem que haja uma efetiva redução na sua ocorrência total, é uma preocupação central nas análises das políticas de prevenção e controle do crime. Esta pesquisa propõe-se a examinar a validade da hipótese de deslocamento do crime, conforme postulada por Weisburd et al. (2006) e Clarke e Mayhew (1988), e a explorar as diferentes formas pelas quais o deslocamento pode ocorrer, segundo as categorias identificadas por Reppetto (1976). A ideia intuitiva de que o crime possui uma natureza “hidráulica”, movendo-se para novas áreas quando prevenido em outras, será abordada criticamente à luz das evidências empíricas e das teorias contemporâneas. Este trabalho também busca esclarecer a extensão em que as estratégias de policiamento focadas em hot spots podem efetivamente reduzir a taxa geral de crimes, mesmo considerando a possibilidade de deslocamento.   2 A dissuasão e deslocamento do infrator   O fenômeno da dissuasão local tem sido aceito há muito tempo pelos críticos das políticas destinadas a criá-lo que negam que isso […]

A Teoria da Anomia: Perspectivas Sociológicas e Aplicações Criminológicas Contemporâneas

Resumo: Este estudo aborda a teoria da anomia, desde suas origens na obra de Émile Durkheim até suas expansões por Robert K. Merton, explorando suas implicações na análise do comportamento criminal. Durkheim introduziu a anomia como um estado de ausência ou desintegração das normas sociais, observando suas manifestações em períodos de brusca alteração na dinâmica social e econômica. Merton, por sua vez, ampliou essa teoria ao destacar a discrepância entre objetivos culturais e meios institucionalizados como causa de comportamentos desviantes. A pesquisa examina como a teoria da anomia se aplica na criminologia moderna, analisando diferentes modos de adaptação à anomia, como conformidade, inovação, ritualismo, retraimento e rebelião, com ênfase especial na inovação e rebelião como formas de comportamento criminal. Estudos empíricos contemporâneos e a influência cultural, exemplificada em músicas de Rap e Hip-Hop, demonstram a relevância da anomia na compreensão da criminalidade e na influência da cultura desviante. Conclui-se que a teoria da anomia continua a ser uma ferramenta vital para a análise criminológica, sugerindo que intervenções focadas na redução da desigualdade e no fortalecimento das instituições sociais podem ser eficazes na prevenção do crime. Palavras-chave: Criminologia; comportamento desviante, solidariedade, consciência coletiva, anomia, cultura desviante.   1INTRODUÇÃO   Etimologicamente, a […]

Teoria do Etiquetamento – Labelling Approach

1 Introdução   A teoria criminológica conhecida como “Labelling Approach” ou “Teoria do Etiquetamento” é uma perspectiva que enfatiza a importância dos rótulos sociais e das reações sociais para o comportamento desviante. Esta teoria sugere que o crime não é inerente ao ato, mas sim uma construção social resultante da aplicação de etiquetas ou rótulos a indivíduos ou grupos. A principal premissa do Labelling Approach é que o desvio é criado pela sociedade ao fazer regras e aplicar essas regras a certos indivíduos, rotulando-os como desviantes. Neste artigo, abordam-se os principais teóricos da abordagem do Labelling Approach, destacando-se Howard S. Becker e Edwin M. Lemert, e realiza-se uma análise aplicada ao sistema jurídico e policial. A teoria de Becker é fundamental para entender como os rótulos sociais impactam a identidade e o comportamento dos indivíduos, enquanto Lemert oferece uma perspectiva sociopsicológica detalhada sobre o comportamento desviante. A exploração dessas teorias permite uma compreensão mais profunda dos processos de criminalização e das dinâmicas sociais que moldam as identidades desviantes. Apesar de não tratar especificamente sobre o crime, a análise também inclui a abordagem de Erving Goffman sobre o estigma, que complementa a teoria do etiquetamento ao examinar como os atributos descreditáveis […]

Teoria da Associação diferencial

A Teoria da Associação Diferencial, formulada por Edwin H. Sutherland e apresentada inicialmente em 1939 na terceira edição de seu livro “Princípios da Criminologia”, representou uma ruptura paradigmática no estudo da criminologia. Sutherland, ao distanciar-se das explicações raciais, biológicas ou psicológicas dominantes em sua época, promoveu uma abordagem inovadora ao focalizar-se na criminalidade sistemática e nos crimes de colarinho branco, desafiando as teorias tradicionais que se restringiam à criminalidade de baixa renda e aos delitos comuns (Matsueda, 2001; Nobrega Junior, 2014; Robert, 2011). Sutherland, embora oriundo da Escola de Chicago, diferenciou-se ao direcionar suas investigações para além das disfunções sociais e culturais, para examinar as interações sociais e comunicacionais como determinantes do comportamento criminoso. A diferença entre sua abordagem e a referida escola se encontrava em seu interesse pela criminalidade sistemática e na preocupação com os crimes empresariais (Maíllo, 2007; Robert, 2011). Sutherland questionava as teorias existentes até então por não serem aplicáveis para todas as modalidades criminosas, em especial às de seu objeto de estudo. Com base em suas conclusões, Sutherland verificou que a conduta criminosa não poderia ser atribuída às disfunções ou dificuldades de adaptações culturais dos indivíduos ou da classe social da qual se originam, muito menos […]

Reincidência criminal e criminalidade em série

RESUMO O artigo tem como objetivo realizar uma abordagem teórica sobre os conceitos de reincidência criminal e criminosos em série, por meio de revisão da literatura, a fim de apresentar um quadro teórico que apresente as distinções entre os conceitos, os quais comumente são utilizados de maneira equivocada. Por meio do trabalho descreveu-se um arcabouço que apresenta os elementos constitutivos e que diferencia cada um dos conceitos, além de realizar de maneira sintética um apanhado dos principais trabalhos que utilizam tais conceitos. Dessa forma, conclui-se que o artigo serve como base para a elaboração de trabalhos futuros que abordem a mesma temática, considerando principalmente a questão de que há no Brasil uma lacuna acadêmica que aborde os criminosos em série, principalmente. Palavras-chave: Reincidência criminal. Crime em série. Criminoso em série. Criminoso Habitual. Carreira Criminal. Criminoso Profissional. 1 INTRODUÇÃO A urgência do entendimento do comportamento criminal, a partir do estudo individual do autor de delitos, emerge da verificação de que o crime, mesmo que frequentemente analisado por acadêmicos e administradores como um conjunto de eventos, é um fenômeno provocado por um indivíduo. Dentre os aspectos considerados na análise tanto do crime quanto da criminalidade, merece relevo o comportamento contumaz de criminosos […]

Introdução à Criminologia

A criminologia é o estudo científico do crime, dos comportamentos criminais e dos sistemas de justiça criminal. Este campo multidisciplinar envolve teorias e metodologias de várias ciências sociais, incluindo sociologia, psicologia, biologia, economia e direito. A criminologia não só busca entender as causas e consequências do crime, mas também desenvolver estratégias eficazes para a prevenção do crime e a reforma do sistema de justiça criminal. A teoria criminológica é uma área complexa que busca entender e explicar o comportamento criminoso e as respostas sociais a ele. Para muitos cidadãos, políticos e profissionais da justiça criminal, a palavra “teoria” pode ter uma conotação negativa, sendo vista como algo distante dos “fatos” concretos. No entanto, uma teoria bem desenvolvida é essencial para a compreensão de situações reais, sentimentos, experiências e comportamentos humanos. Mas, o que é Teoria? Teoria, no contexto das ciências sociais e particularmente na criminologia, refere-se a declarações generalizadas que explicam como dois ou mais eventos estão relacionados. As teorias criminológicas tentam responder perguntas sobre o comportamento criminal e o sistema de justiça criminal, oferecendo explicações sobre como e por que certos eventos ocorrem (Akers, 1999). Akers (1999) ainda define critérios de avaliação da Teoria Criminológica. Segundo o autor, para […]